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28.08.15

Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum nem razão alguma para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem: sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia tê-lo sido. Entre outrem e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca correctamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas é talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui. (...) Conheci seres infinitamente mais nobres, mais perfeitos do que eu, como teu pai, Antonino; convivi com numerosos heróis e mesmo alguns sábios. Encontrei na maior parte dos homens pouca consistência no bem, mas sem terem mais no mal; a sua desconfiança, a sua indiferença mais ou menos hostil cedia quase depressa de mais, quase vergonhosamente transformava-se quase com demasiada facilidade em gratidão, em respeito, aliás certamente sem maior duração; o seu próprio egoísmo podia ser aproveitado para fins úteis. Espanto-me sempre de que tão poucos me tenham odiado; tive apenas dois ou três inimigos encarniçados, cabendo-me a mim, como sempre, uma parte da responsabilidade. Fui amado por alguns: esses deram-me muito mais do que eu tinha o direito de exigir ou mesmo de esperar deles, a sua morte e algumas vezes a sua vida. E o deus que trazem em si revela-se muitas vezes quando eles morrem.

Há um único ponto em que me sinto superior ao comum dos homens: sou ao mesmo tempo mais livre e mais submisso que eles se atrevem a ser. Quase todos desconhecem igualmente a sua justa liberdade e a sua verdadeira servidão. Amaldiçoam as suas grilhetas; outras vezes parece vangloriarem-se delas. Por outro lado, o seu tempo passa-se em vãos desregramentos; não sabem tecer, para si próprios, a mais ligeira sujeição. Por mim, procurei mais a liberdade que o poder, e o poder somente porque, em parte, favorecia a liberdade. O que me interessava não era uma filosofia de homem livre (todos aqueles que se exercitam nisso me aborreceram) - mas uma técnica: queria encontrar a charneira em que a nossa vontade se articula ao destino, onde a disciplina secunda a natureza em vez de a refrear.

(...)

Mas foi ainda à liberdade de aquiescência, a mais árdua de todas, que eu me entreguei com maior rigor. Queria o estado em que encontrava; dispondo-me a considerar como um exercício útil os meus anos de dependência, a minha sujeição perdia o que tinha de amargo e mesmo de indigno. Escolhia o que tinha, obrigando-me apenas a tê-lo totalmente e a apeciá-lo o melhor possível. Os trabalhos mas enfadonhos eram executados sem dificuldade por pouco me agradasse dedicar-me a eles. Logo que um objecto me repugnava, fazia dele um assunto de estudo; esforçava-me habilmente por tirar dele um motivo de alegria. Perante uma ocorrência imprevista ou quase desesperada, de uma emboscada ou de uma tempestade no mar, desde que todas as medidas relativas aos outros fossem tomadas, eu, por mim, festejava a adversidade, usava o que ela me trazia de inesperado,  e a emboscada ou a tempestade integravam-se sem choque nos meus planos ou nos meus sonhos. Mesmo no meio do meu maior desastre vi o momento em que o esgotamento lhe tirava uma parte do seu horror, em que eu o tornava meu aceitando aceitá-lo. Se tiver alguma vez de sentir a tortura, e a doença vai sem dúvida encarregar-se de me submeter a ela, não tenho a certeza de conseguir de mim, durante muito tempo, a impassibilidade de um Trásea, mas terei pelo menos o recurso de me resignar aos meus gritos. E foi assim, com uma mistura de reserva e audácia, de submissão e revolta cuidadosamente concertadas, de extrema exigência e prudentes concessões, que eu, finalmente, me aceitei a mim próprio.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

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