Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


...

28.08.15

A Grécia empobrecida mantinha-se numa atmosfera de graça pensativa, de clara subtileza, de sábia voluptuosidade. Coisa alguma mudara desde a época em que o discípulo do retórico Iseu tinha respirado pela primeira vez o odor do mel quente, do sal e da resina; em suma, coisa alguma mudara havia séculos. O areal das palestras continuava a ser tão louro como outrora; Fídias e Sócrates já o não frequentavam, mas os jovens que se exercitavam ali pareciam-se ainda com o delicioso Charmido. Parecia-me, às vezes, que o espírito grego não tinha levado até às suas conclusões extremas as premissas do seu próprio génio: as colheitas estavam por fazer; as espigas maduras ao sol e já ceifadas eram pouca coisa em comparação com a  promessa eleunínia da semente escondida nesta bela terra. Mesmo entre os meus selvagens inimigos sármatas encontrava vasos de perfil puro, um espelho embelezado com uma imagem de Apolo, clarões gregos como um pálido sol sobre a neve. Entrevia a possibilidade de helenizar os bárbaros, aticizar Roma, impor suavemente ao mundo a única cultura que um dia se separou do monstruoso, do informe, do imóvel, que inventou uma definição do método, uma teoria da política e da beleza. O ligeiro desdém dos gregos, que nunca deixei de sentir sob as suas mais calorosas homenagens, não me ofendia; achava-o natural; fossem quais fossem as virtudes que me distinguiam deles, sabia que seria sempre menos subtil que um marinheiro de Egina, menos sábio que uma vendedeira de ervas da Ágora. Aceitava sem irritação as complacências um pouco sobranceiras desta raça altiva; concedia a um povo inteiro os privilégios que sempre concedi tão facilmente aos objectos amados. Mas, para dar aos Gregos o tempo de continuar e de completar a sua obra, seriam precisos alguns séculos de paz e os calmos ócios, as prudentes liberdades que a paz autoriza. A Grécia contava connosco para sermos os seus guardas, visto que, enfim, nos pretendíamos senhores. Prometi a mim mesmo velar sobre o deus desarmado.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

Autoria e outros dados (tags, etc)




Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

Mais sobre mim

foto do autor