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09.09.15

Olhe-se Rimbaud: «On n'est pas sérieux, quand on a dix-sept ans». E quando se tem quarenta e dois? Aos dezassete pode, por exemplo, expor-se a desenvoltura impertinente; escrevo para compreender, ou modificar, ou salvar o mundo. Nada sério, claro. Mas aos quarenta e dois é-se tão pouco sério que convém evitar superlativos da candura exercida com tanto impudor. Respondemos que é «porque sim». Uma vez julguei que escrevia por não saber mais nada. Mas acaso faço ou fiz eu isso melhor ou pior do que outra qualquer coisa que fiz ou faria? Olhando para os meus polegares com aquela ociosa, sempre e ainda desesperada, e remediadamente desenvolta, e apesar de tudo agressiva indiferença com que afastamos de nós o que nunca ganhámos, resolvo ser inequívoco (se é que se pode sê-lo) a respeito de tudo: escrevi porque tinha um problema de ódio a resolver. A hipotética beleza convicta da metáfora que é o poema resume-se ao equilíbrio interno de uma estratégia com destino à eficácia. Ódio. Se um poema pudesse matar, como de facto deveria matar, eu estaria cercado por uma boa putrefacçãozinha humana. E - ao contrário do que aconteceria no caso de revólveres e gravatas - com a penitência para os outros, longe. Mas o poema não mata, ninguém é nele mais que suburbano. Resolve a gente ao menos o problema na internidade biográfica? Tudo para adiar, imagine-se. Adiar horizontalmente, sobre as idades pessoais, o mundo. E falam de seriedade! E vem aquele com os seus dezassete anos! Adiar. Então chega-se aos quarenta e dois (...). Mas digo: nunca se tem quarenta e dois anos nem cem nem mil, nunca. Portanto, cautela. É sempre tempo de rebentar, sempre ódio, sempre crime, ou suicídio, ou loucura (...)

Herberto Helder, Photomaton & Vox

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