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20 de Agosto

22.07.21

Quanta perfeição naquele dia intensamente azul, em que tudo reluzia ao sol matinal! Algumas nuvens pairavam dispersas, sem destino, sem rumo. O sol sobre as irrequietas folhas da faia era como jóias brilhantes contra os declives das verdes elevações. As campinas haviam mudado durante a noite; mais intensas, mais macias, de um verde incomum. Bem no alto da colina havia três vacas a pastar preguiçosamente; seus guizos soavam no límpido ar da manhã; movimentavam-se em fila, mastigando com firmeza, enquanto cruzavam a campina. A cabine aérea de esquiadores passou por cima delas, sem incomodá-las. Era uma linda manhã e as montanhas cobertas de neve erguiam-se pontiagudas contra um céu tão claro a ponto de se tornarem visíveis as várias e pequenas cascatas. Manhã de sombras alongadas, de infinita beleza. É estranho como o amor era a essência dessa beleza. Havia tal delicadeza no cenário, que tudo parecia aquietar-se, temendo que algum movimento pudesse despertar uma sombra oculta. E existiam algumas nuvens.

Foi um agradável passeio de carro, que se diria deleitar-se com a sua própria função; fazia as curvas com facilidade, mesmo as mais difíceis, suportando bem a subida da encosta, com extraordinário desempenho e potência em qualquer situação. Parecia um animal conhecedor da sua força. A estrada cheia de curvas serpenteava por denso bosque banhado de sol, onde os pontos luminosos vibravam e dançavam com as folhas; a cada curva da estrada, era mais intensa a luz, o movimento e o êxtase. Cada árvore, cada folha, mantinha-se solitária, viva e silenciosa. Por uma estreita abertura entre as árvores divisamos uma clareira cujo verde brilhava ao sol. Fascinava-nos tanto aquele espetáculo que chegávamos a esquecer-nos dos perigos da estrada serrana. Logo, a estrada se amenizava e seguia em direção a outro vale. As nuvens movimentavam-se agora, protegendo-nos do sol intenso. A estrada se aplainara, se é que um caminho montanhoso pode ser plano; ela enveredava por uma colina coberta de escuros pinheiros, deparando com gigantescas montanhas, rochas e neve, com verdes campos e cascatas, com casebres de madeira e com as sinuosas curvas da serra. Era difícil acreditar no que viam os olhos — a esmagadora imponência daquelas rochas bem modeladas, as montanhas nuas, cobertas de neve, e uma infindável cadeia de penhascos, cercada de verdes campinas, tudo como que unido no vasto amplexo da montanha. Realmente inacreditável; havia ali beleza, amor, destruição e a grandeza da criação, não apenas aqueles rochedos, nem os verdes campos, nem tampouco as pequenas cabanas; não é que aquilo participasse do cenário, mas era algo realmente transcendente. Aquilo simplesmente existia,
majestoso e belo, cujo esplendor superava qualquer expectativa; sua presença era tão definitiva e imóvel que o cérebro com seus pensamentos significava tanto quanto aquelas folhas mortas, caídas no bosque. Tamanha era a sua intensidade e força que o mundo, as árvores e a terra cessavam de existir. Era amor, criação e destruição. Nada mais existia. 

Sentia-se a essência das coisas profundas. A essência do pensamento é aquele estado em que não existe pensar. Por mais amplo e profundo que seja o alcance do pensamento, ele jamais deixará de ser frívolo e superficial. Surge aquela essência com o findar do pensamento. Esse findar é a própria negação, e negar não admite o caminho positivo: não existe um método ou sistema capaz de eliminar o pensamento. O método, o sistema é uma maneira positiva de negar, tornando-se, assim, o pensamento incapaz de encontrar a sua própria essência. Para descobri-la o pensamento tem de cessar. A essência do ser é o não-ser, e para “ver” a totalidade do não-ser, deve o homem libertar-se do desejo do vir-a-ser. Não há liberdade se existe a continuidade, pois tudo aquilo que continua é limitado pelo tempo. Toda aexperiência aprisiona o pensamento ao tempo, e a mente livre do desejo de experimentar percebe a sua própria essência. Este estado psicológico que cessa de buscar a experiência não significa paralisia mental; ao contrário, é a mente aditiva, acumulativa, que começa a definhar. Acumular é um acto mecânico, repetitivo; tanto a renúncia quanto a mera aquisição são actos mecânicos de imitação. Torna-se livre a mente que destrói este mecanismo de acumulação e defesa; desta maneira, ela se faz indiferente ao acto de experimentar.

Então, o que existe é o facto e não a experiência do facto; a opinião sobre o facto, a sua avaliação, considerá-lo belo ou não, é experimentar o facto. E isto significa negá-lo, fugir-lhe. Porém experimentar um facto, sem a interferência de qualquer pensamento ou sentimento, é um fenómeno profundo e grave.

Despertámos esta manhã com aquela estranha imobilidade do corpo e do cérebro; assim, penetramos em insondáveis e profundas regiões de fervor e êxtase que revelavam aquela extraordinária bênção.

0 processo continua brandamente.

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

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