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20 de Setembro

20.09.21

Como era sufocante a atmosfera naquele auditório lotado, num dia de insuportável calor! Não obstante o cansaço e o desconforto físico, ao despertarmos durante a noite, deparámos com aquela coisa singular. Com a sua intensidade, não só invadira o quarto, mas alojara-se profundamente no interior do cérebro, parecendo superar todo o pensamento, espaço e tempo. O indescritível poder daquela energia impelia-nos para fora da cama e, uma vez sobre o terraço, batido pelo vento frio, aquela intensidade não cedia, prolongando-se por toda a manhã. Impossível conceber aquele desconhecido que não era algo imaginário, nem simulação, tão-pouco o desejo de sensação ou excitamento. Era ele sempre novo a cada aparição; o pensamento tentava em vão recordar acontecimentos passados, ou lembrar-se do ocorrido naquela manhã. Aquela coisa singular transcendia a esfera do pensar, do desejo e da imaginação. Sem ser ilusória, a vastidão do desconhecido é inacessível aos artifícios do pensamento e do desejo, e o cérebro incapaz de conceber aquela imensidão.

Curiosamente, esta aparição é sempre livre de esforço ou tensão; bem-vinda quando surge, sem ser chamada, a sua ausência não nos causa preocupação. Não podemos utilizar a sua força e beleza, nem atraí-la ou rejeitá-la. Ela vem e vai em total liberdade.

Isenta de qualquer esforço, era puro silêncio a meditação naquela manhã. Força imóvel, inefável, imensurável, estática, que irradiava incessante movimento expansivo na direcção do infinito. A acção contínua e explosiva do desconhecido prescindia de um centro que conduz à decadência e à estagnação, e a sua intensidade não era afectada pelas subtis artimanhas do cérebro. O silêncio por este produzido difere muito do estado a que nos referimos. Por não criar resistência, é imperturbável, contém e transcende todas as coisas. Nem mesmo o tráfego intenso de caminhões de transporte de carga para a cidade, ou o jogo de luzes do alto da torre, perturbava aquele silêncio intemporal.

Ao raiar do dia, encoberto por majestosa nuvem, o sol projectava no céu fantástico movimento de luz e sombra. Esse espectáculo só terminaria quando a nuvem sumisse por detrás das chaminés. Como é limitado o cérebro, por mais cultivado ou requintado que seja! Nada dissipa a sua mediocridade. Ainda que o cérebro vá à lua, explore o universo ou as profundezas da terra, projecte e monte o mais complexo maquinismo, inclusive computadores capazes de inventar novos computadores, e mesmo que ele venha a causar a sua própria destruição e ressurreição, nada disso o livrará da mediocridade. O cérebro só é capaz de funcionar no tempo e no espaço, toda a filosofia é limitada pelo seu próprio condicionamento e as teorias e especulações são urdidas por sua astúcia. É inútil qualquer tentativa de fuga de si mesmo. Seus deuses e redentores, seus mestres e líderes têm a medida da sua própria mediocridade. No seu esforço para superar a estupidez, a eficácia é determinada pelo grau da sua astúcia. Ora buscando, ora pressionado, o cérebro vive na sombra do seu próprio sofrimento, incapaz de transcender a sua futilidade.

A incessante actividade do cérebro, na busca das suas projecções, é inacção. As reformas postas em prática estão sempre a precisar de novas reformas. Acorrentado ao círculo vicioso da acção e da inacção, o pensamento é o desdobramento dos seus sonhos.

Activo ou inerte, nobre ou ignóbil, é infinita a sua superficialidade. Incapaz de escapar de si mesmo, vive na sordidez da sua virtude e moralidade. Só lhe resta permanecer completamente imóvel, o que não deve ser confundido com inércia ou indolência. Esta imobilidade é a única maneira de se preservar a sensibilidade do cérebro. Na renúncia de si mesmo e na rejeição das suas actividades, cessam as suas habituais e defensivas reacções, bem como o vício de julgar, condenar ou justificar. E é nessa renúncia que a mediocridade desaparece e cessa o movimento do vir-a-ser do desejo de preenchimento. Revela-se, então, o que é: trata-se de um instrumento mecânico, inventivo, calculista, funcional, cuja perfeição é assombrosa. Como toda a máquina, o cérebro é passível de desgaste e morte; torna-se medíocre ao tentar penetrar no insondável mistério do desconhecido, do imensurável. O conhecido é o seu elemento, e lhe é vedado actuar no incognoscível. Suas criações pertencem ao campo do conhecido, mas nem a palavra nem as imagens podem captar o mistério da criação. Jamais conhecerá ele esta beleza, pois a imensidão do indescritível somente aflora na completa imobilidade do cérebro.

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

 

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