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À Porta da Lei

21.09.15

À porta da lei está um guarda. Um homem do campo aproxima-se do guarda e pede para entrar na lei. Mas o guarda não lhe pode dar autorização para entrar. O homem pensa um pouco e depois pergunta se poderá entrar mais tarde. «É impossível», diz o guarda, «mas agora não.» Como a porta de entrada na lei está aberta, como sempre, e o guarda se afasta um pouco, o homem curva-se para poder olhar lá para dentro. Ao reparar nisso, o guarda ri e diz: «Se estás assim tão curioso, tenta entrar, apesar de eu to proibir. Mas nota bem: eu sou poderoso. E sou apenas o mais humilde dos guardas. Mas de sala em sala há outros guardas, cada um mais poderoso do que o anterior. Nem eu próprio já consigo suportar a vista do terceiro.» O homem do campo não esperava encontrar tais dificuldades; pensava que a lei deve ser sempre acessível a todos, mas ao olhar agora melhor para o guarda, com o seu casaco de peles, o grande nariz adunco, a barba negra à tártaro, comprida e fina, decide que é melhor esperar até ter autorização para entrar. O guarda dá-lhe um banquinho e deixa que ele se sente ao lado da porta. O homem fica ali sentado dias e anos. Tenta muitas vezes que o deixem entrar e cansa o guarda com os seus pedidos. O guarda faz-lhe frequentemente pequenos interrogatórios, perguntas sobre a sua terra e muitas outras coisas, mas pergunta só por perguntar, como fazem os grandes senhores , e por fim diz-lhe sempre que ainda o não pode deixar entrar. O homem, que trouxe muita coisa consigo para a viagem, recorre a tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. este aceita, na verdade, tudo o que ele lhe dá, mas vai logo dizendo: «Só aceito para tu não ficares com a impressão de ter perdido alguma oportunidade.» Durante aqueles muitos anos, o homem observa o guarda quase ininterruptamente. Esquece os outros guardas, e este primeiro parece-lhe ser o único obstáculo à entrada na lei. Amaldiçoa este infeliz acaso, nos primeiros anos sem contemplações e alto e bom som, mas mais tarde, à medida que vai ficando velho, já só resmunga com os seus botões. Começa a ficar com tiques infantis e, como em todos aqueles anos de observação do guarda também viu que ele tinha pulgas na gola da pele, pede também ajuda às pulgas para fazer o guarda mudar de opinião. Por fim, a luz dos olhos começa a ficar fraca, e ele já não sabe se realmente está a ficar mais escuro à sua volta ou se são os olhos que o enganam. Mas uma coisa é certa: agora apercebe-se de um brilho no escuro, uma luz que irrompe da porta da lei e nunca se apaga. Agora já não tem muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências de todo aquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até agora não fez ao guarda. Como já não consegue erguer o corpo hirto, faz-lhe sinal com a mão. O guarda tem se curvar muito para o ouvir, porque a diferença de alturas se acentuou bastante, em desfavor do homem. «O que é que ainda queres saber?», pergunta o guarda. «És mesmo insaciável.» «Toda a gente aspira a entrar na lei, não é?», diz o homem. «Como é que se explica então que em todos estes anos ninguém, além de mim, tenha pedido para entrar?» O guarda percebe que o homem está a dar as últimas e, para que o ouvido cada vez mais fraco o possa entender, grita-lhe: «Ninguém mais podia entrar por aqui, porque esta entrada estava-te destinada só a ti. Agora vou fechá-la.»

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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«Não sei», exclamei em surdina, «não sei mesmo. Se ninguém vier, então paciência, não vem ninguém. Eu não fi mal a ninguém, ninguém me fez mal a mim, mas ninguém me quer ajudar. Ninguém mesmo. Mas isso também não é assim. Só que ninguém me ajuda - de contrário, mesmo ninguém seria uma beleza. Gostava muito - que me diz a isto? - de fazer um passeio em companhia mesmo só de ninguém. Naturalmente, à montanha, onde é que havia de ser? Como estes ninguéns se apertam uns aos outros, todos estes braços estendidos de través e entrelaçados, estes pés todos separados por minúsculos passos! Todos de casaca, é bem de ver! Vamos por aí fora, tralalá, um vento propício a soprar pelos espaços que nós e as nossas pernas deixamos abertos. Na montanha, as gargantas libertam-se! É um milagre não nos pormos a cantar!»

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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Decisões

20.09.15

Devemos ser capazes de superar facilmente um estado lastimável, ainda que com uma energia forçada. Levanto-me da poltrona, dou a volta à mesa, solto a cabeça e o pescoço, deixo os olhos ganhar luz, distendo os músculos à sua volta. Vou ao encontro de todos os sentimentos, recebo A. de forma esfuziante quando ele chegar, aceito amavelmente B. na minha sala, absorvo sofregamente, quando vem C., tudo o que se diz, apesar do sofrimento e do esforço.

Mas, mesmo que as coisas se passem assim, cada erro que não possa ser evitado entrevará tudo, o que é leve e o que é pesado, e eu vou ter de andar para trás em círculo.

Por isso, o melhor conselho é aceitar tudo, comportarmo-nos como uma massa pesada e, ainda que nos sintamos impelidos por um vendaval, não ceder à tentação de dar um único passo desnecessário, olhar para os outros com olhos de bicho, não sentir o menor arrependimento, esmagar com as próprias mãos aquilo que ainda resta da vida como um fantasma, ou seja, aumentar ainda o último silêncio, próprio do túmulo, e não aceitar mais nada a não ser ele.

Um gesto característico de um estado de espírito como este é o de passar com o dedo mínimo pelas sobrancelhas.

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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10.09.15

 

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10.09.15

Sei que me não é dado ainda compreender esta coisa que transformaria o meu destino: uma vida louca e rigorosa.

Herberto Helder, Photomaton & Vox

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10.09.15

O que os poetas provam é que é preciso uma imagem para revelar que a realidade não existe.

Herberto Helder, Photomaton & Vox

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09.09.15

Olhe-se Rimbaud: «On n'est pas sérieux, quand on a dix-sept ans». E quando se tem quarenta e dois? Aos dezassete pode, por exemplo, expor-se a desenvoltura impertinente; escrevo para compreender, ou modificar, ou salvar o mundo. Nada sério, claro. Mas aos quarenta e dois é-se tão pouco sério que convém evitar superlativos da candura exercida com tanto impudor. Respondemos que é «porque sim». Uma vez julguei que escrevia por não saber mais nada. Mas acaso faço ou fiz eu isso melhor ou pior do que outra qualquer coisa que fiz ou faria? Olhando para os meus polegares com aquela ociosa, sempre e ainda desesperada, e remediadamente desenvolta, e apesar de tudo agressiva indiferença com que afastamos de nós o que nunca ganhámos, resolvo ser inequívoco (se é que se pode sê-lo) a respeito de tudo: escrevi porque tinha um problema de ódio a resolver. A hipotética beleza convicta da metáfora que é o poema resume-se ao equilíbrio interno de uma estratégia com destino à eficácia. Ódio. Se um poema pudesse matar, como de facto deveria matar, eu estaria cercado por uma boa putrefacçãozinha humana. E - ao contrário do que aconteceria no caso de revólveres e gravatas - com a penitência para os outros, longe. Mas o poema não mata, ninguém é nele mais que suburbano. Resolve a gente ao menos o problema na internidade biográfica? Tudo para adiar, imagine-se. Adiar horizontalmente, sobre as idades pessoais, o mundo. E falam de seriedade! E vem aquele com os seus dezassete anos! Adiar. Então chega-se aos quarenta e dois (...). Mas digo: nunca se tem quarenta e dois anos nem cem nem mil, nunca. Portanto, cautela. É sempre tempo de rebentar, sempre ódio, sempre crime, ou suicídio, ou loucura (...)

Herberto Helder, Photomaton & Vox

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09.09.15

Enfim, uma pessoa não se embebeda somente para as miúdas perversões da memória, para a  obliquidade de invenções avulsas, a trivialidade dos equívocos da emoção. Chateia-me ser um pequeno monstro sensível. «Merda», disse eu, «tenho uma cabeça firme. Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia.» «Bebe», respondeu o amigo. «Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde ninguém me mexa nem eu me possa mexer muito, estou cansado de me mexer.» Depois apareceram as pessoas que ajudam, que têm planos para a nossa glória. Comecei a ter medo. Então fiz a mala. «Merda, merda, merda», sibilava baixinho. Esta é realmente a minha embaraçosa chegada à maturidade. Não serve para espectáculo nem dá nada como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira. 

Herberto Helder, Photomaton & Vox

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07.09.15

 

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07.09.15

Fala-se para estar só, ser contra os outros, limitar a invasão do mundo - dessas ruas e casas, dessa população de funcionários angélicos. Não me venham com inocências nem sabedorias.

Herberto Helder, Photomaton & Vox

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