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28.04.16

Para fazeres o que fazes, precisas de caminhar. É a caminhar que te vêm as palavras, que ouves os ritmos das palavras que vais escrevendo mentalmente. Um pé à frente, depois o outro, a batida dupla do teu coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas, dois pés. Isto, e depois aquilo. Aquilo, e depois isto. A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham significado, possam às vezes ter significado, é na música que os significados começam. Sentas-te à mesa para escrever fisicamente as palavras, mas na tua cabeça continuas a caminhar, sempre a caminhar, e o que ouves é o ritmo do teu coração, o batimento do teu coração. Mandelstam: «Gostava de saber quantos pares de sandálias gastou Dante enquanto trabalhava na Commedia.» A escrita é uma forma de dança.

Paul Auster, Diário de Inverno

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28.04.16

(...) uma história que alguém te contou sobre James Joyce, Joyce em Paris nos anos vinte, circulando há oitenta e cinco anos por uma festa quando uma mulher se dirigiu a ele e lhe perguntou se podia apertar a mão que escreveu Ulisses. Em vez de  lhe estender a mão direita, Joyce ergueu-a no ar, observou-a por momentos e disse: «Permita-me que lhe lembre, minha senhora, que esta mão também já fez outras coisas.»

Paul Auster, Diário de Inverno

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28.04.16

Somos todos estranhos para nós próprios, e, se temos alguma noção de quem somos, é só porque vivemos dentro dos olhos dos outros.

Paul Auster, Diário de Inverno

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28.04.16

(...) Não há dúvida de que és uma pessoa imperfeita e sofredora, um homem que desde sempre transporta consigo uma chaga (se assim não fosse, por que razão terias passado toda a tua vida adulta a verter palavras de sangue para uma página?), e as recompensas que colhes do álcool e do tabaco são muletas que te mantêm erguido e a caminhar pelo mundo o teu ser aleijado. Automedicação, chama-lhe a tua mulher. Justiça lhe seja feita - ao contrário do que acontecia com a mãe da tua mãe, a tua mulher não quer que tu sejas diferente do que és. Tolera-te as fraquezas e não se zanga contigo nem te censura, e se se preocupa é só porque quer que vivas para sempre. Contas as razões por que a manténs junto a ti há tantos anos, e essa é sem dúvida uma delas, uma das estrelas cintilantes na vasta constelação do amor perene."

Paul Auster, Diário de Inverno

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28.04.16

O falcão matizado desce velozmente e acusa-me, queixa-se da minha tagarelice e ociosidade.

Eu também não fui domesticado, eu também não sou traduzível,

Lanço o meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.

 

O último fulgor do dia permanece em mim,

Arremessa a minha imagem depois de todas, real como elas, sobre os desertos, sobre as sombras,

Insinua-se no vapor e nas trevas.

 

Parto como o ar, sacudo os meus cabelos brancos sob o sol que foge,

Espalho a minha carne em remoinhos, espalho-a em desenhadas rendas.

 

Entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,

Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

 

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,

Todavia dar-te-ei saúde,

E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

 

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,

Se não estiver num lugar, procura-me noutro,

Algures estarei à tua espera.

Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

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28.04.16

O passado e o presente murcham... Já os enchi e esvaziei,

E vou encher a minha prega futura.

 

Ei, tu que me ouves aí em cima! Que tens a dizer-me?

Olham-me no rosto enquanto respiro a tarde,

(Fala com franqueza, mais ninguém te ouve, e eu só fico mais um minuto).

 

Contradigo-me?

Muito bem, então contradigo-me,

(Sou imenso, tenho multidões).

 

Dirijo-me aos que estão perto, espero no umbral.

Quem fez o seu trabalho do dia? Quem acabará primeiro a sua ceia?

 

Falarás antes de me ir embora? Tirarás a proa demasiado tarde?

Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

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28.04.16

Está em mim... não sei o que é... mas sei que está em mim.

 

Desfigurado e suado... calmo e fresco torna-se o meu corpo,

Durmo... durmo longamente.

 

Não o conheço... não tem nome... é uma palavra não proferida,

Não vem em nenhum dicionário , expressão, símbolo.

 

Alto gira sobre algo maior do que a Terra sobre a qual giro,

Aí a criação é o amigo cujo abraço me desperta.

Talvez possa dizer algo mais. Noções! Imploro pelos meus irmãos e irmãs.

 

Vedes, ó irmãos e irmãs?

Não é o caos nem a morte... é forma, união, plano... é a vida eterna... é a Felicidade.

 Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

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28.04.16

Creio que podia regressar e viver com os aninais, são tão plácidos e autónomos,

Fico a olhar para eles longamente.

 

Não se impacientam, não se lamentam da sua condição,

Não jazem acordados no escuro a chorar pelos pecados,

Não se maçam com discussões sobre os seus deveres para com Deus,

Nenhum está descontente, nenhum sofre da mania de possuir coisas,

Nenhum se ajoelha perante outro, nem perante os antepassados que viveram há milénios,

Nenhum é respeitável ou infeliz à face da terra.

 

Revelam a sua relação comigo e aceito-a,

Trazem-me sinais de mim, provam claramente que os contêm em si mesmos.

Pergunto-me onde terão adquirido esses sinais,

Será que em tempos remotos por aí passei deixando-os negligentemente cair?

 

Avançava então e avanço agora e sempre,

Juntando e e mostrando sempre mais e depressa,

Infinito e de todas as espécies sou, e igual a elas sou,

Não escolho demasiado aqueles que me recordarão,

Elejo aquele que amo e fraternalmente com ele vou.

 

Um garanhão de beleza imensa responde logo às minhas carícias,

A alta fronte, os olhos afastados,

Os membros reluzentes e flexíveis, a cauda longa varrendo o chão,

A ferocidade dos olhos cintilantes, as orelhas finas, e com elegância se move.

 

As narinas dilatam-se quando os meus calcanhares o apertam,

Os bem torneados membros estremecem de prazer enquanto galopamos e regressamos.

 

Só te uso um minuto, garanhão, e já te deixo,

Para que preciso do teu galope quando o meu te ultrapassa?

De pé ou sentado sou mais veloz que tu.

 

Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

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28.04.16

O que significa ser, em qualquer das suas formas?

(Ás voltas e voltas andamos e voltamos sempre aí),

Se mais nada tivesse evoluído, suficiente seria a amêijoa na sua concha dura.

 

A minha concha não é dura,

Instantâneos transmissores percorrem-me quando ando e quando paro,

Eles tomam cada objecto e conduzem-no até mim.

 

Mexo, aperto, sinto com os meus dedos, e sou feliz,

Não posso deixar de tocar os outros.

 

Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

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28.04.16

Sobretudo, não podemos dar-nos ao luxo de não viver no presente. Entre todos os mortais, abençoado é aquele que não perde um instante a relembrar o passado. É anacrónica a filosofia que não nos manda escutar o cantar do galo nos celeiros das redondezas. Esse som relembra-nos geralmente que estamos a enferrujar e a ficar antiquados nas nossas ocupações e hábitos do pensamento. Já a filosofia desse abençoado homem se resume a um tempo mais moderno do que o nosso. Há algo que ela sugere que é um testamento mais novo - o evangelho segundo o momento presente. Não ficou na retaguarda; levantou-se cedo e começou cedo o dia, e estar onde ele está é viver na altura certa, nas primeiras fileiras do tempo. É expressão do carácter sadio e do vigor da Natureza, uma vanglória para o mundo - a salubridade de um regato que corre, uma nova fonte de Musas, e que celebra o instante que passa. Onde reside este carácter salutar não se aprovam leis que condenam escravos fugitivos. Quem não traiu muitas vezes o seu amo depois de ter ouvido o cantar do galo?

O mérito do canto deste pássaro reside em ser alheio a todo o queixume. O cantor pode facilmente comover-nos até às lágrimas ou fazer-nos rir, mas quem é capaz de despertar em nós a pura alegria da manhã?

Henry David Thoreau, Caminhada

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