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Sacrifício

23.11.20

Há países em que os espíritos mais dados à carreira de pensar a cada momento se sentem obrigados à explicação do que é mais simples, mais elementar, mais suposto em todos os discursos. O esclarecimento do vocabulário, o regresso pedagógico a noções-base, o desfazer dos enganos inverosímeis que surgem da incultura e dos adormecidos raciocínios impedem-nos de atingir as alturas e de nos dar as obras para que estavam preparados e que, noutro terreno, romperiam seguras.
Eles próprios, naturalmente, têm consciência desse contínuo quebrar de voos; a maior extensão e maior vigor da consciência são, de facto, o que eleva o homem sobre o homem; e, como o percebem, como sabem medir, melhor do que ninguém, a distância a que ficam do ponto que se tinham destinado, têm um momento de desânimo, uma dúvida sobre a utilidade dos anos gastos, um desespero de, por impossibilidade dos outros, não terem chegado à meta desejada; não valeria mais a pena agrilhoar-se ao mastro grande e vogar direito à sua pátria?
Certamente o podem fazer os que só têm talento, pela perfeita razão de que lhes está vedado qualquer outro caminho; o especialismo filológico ou o especialismo poético ou o especialismo filosófico renunciam a explicar e nem sequer chegam a sentir, na maior parte das vezes, o seu afastamento do comum; se o sentem transformam-no em virtude e para eles talvez seja virtude; um homem de talento, de particular habilidade, atirado para o campo do geral, arrisca-se a nem colher o fruto que as limitações lhe oferecem, nem flutuar no mar da relação.
Mas há mais perfeitas criações; da mão de Deus saiu, num grau mais alto que o talento, a inteligência que permite ao homem regressar até ele; os que a possuem não podem afastar-se das estradas e deixar seguir, na escura noite, por entre as névoas, o bando cego; é neles que reside, por eles que se alcança a redenção de todo o género; descobrem o norte a que rumar e amparam os fracos, levantam os que tombam na marcha; devem tomar como bênção o espinho que os rasga; toda a salvação tem uma cruz; e quanto mais pesada for a cruz, tanto mais valiosa será a salvação.

Agostinho da Silva, Diário de Alcestes

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Ser Diferente

22.11.20

A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.

Agostinho da Silva, Diário de Alcestes

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22.11.20

A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio; quem apareça manchado de superstição ou de fanatismo ou incapaz de separar e distinguir ou dominado pelos sentimentos e impulsos, não o tomarei eu como guia do povo; antes de tudo uma clara inteligência, eternamente crítica, senhora do mundo e destruidora das esfinges; banirá do seu campo a histeria e a retórica; e substituirá a musa trágica por Platão e os geómetras.
Hei-de vê-lo depois de despido de egoísmo, atente somente aos motivos gerais; o seu bem será sempre o bem alheio; terá como inferior o que se deleita na alegria pessoal e não põe sobre tudo o serviço dos outros; à sua felicidade nada falta senão a felicidade de todos; esquecido de si, batalhará, enquanto lhe restar um alento, para destruir a ignorância e a miséria que impedem os seus irmãos de percorrer a ampla estrada em que ele marcha.
Nenhuma vontade de domínio; mandar é do mundo das aparências, tornar melhor de um sólido universo de verdades; se tiver algum poder somente o veja como um indício de que estão ainda muito baixos os homens que lho dão; incite-o o sentir-se superior a mais nobre e rude esforço para que se esbatam e percam as diferenças; não aproveite para mostrar a sua força a fraqueza dos outros; o bom lutador deseja que o combatam mais rijos lutadores.
Será grato aos contrários, mesmo aos que veem armados da calúnia e da injúria; compassivo da inferioridade que demonstram fará tudo que puder para que melhorem e se elevem; responderá à mentira com a verdade e ao ódio com o bem; tenazmente se recusará a entrar nos caminhos tortuosos; se o conseguirem abater, tocará com humildade a terra a que o lançaram, descobrirá sempre que do seu lado esteve o erro e de novo terá forças para a luta; e se o aplaudirem pense logo que houve um erro também.

Agostinho da Silva, Considerações e Outros Textos

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19.11.20

O passado, o presente e o futuro são apenas um instante aos olhos de Deus, sob cujas vistas deveríamos viver. O tempo e o espaço, a sucessão e a extensão são apenas condições acidentais do pensamento. A imaginação pode transcendê-los, e mais do que isso, no âmbito livre das existências ideais. As coisas serão em sua essência aquilo que desejarmos que elas sejam. Uma coisa existe segundo a forma com que a encaramos. Blake dizia que: “Onde os outros veem apenas o amanhecer surgindo por trás da colina, eu vejo os filhos de Deus gritando de alegria”.

Oscar Wilde, De Profundis

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19.11.20

(...) tenho consciência agora de que, por trás de toda a beleza, por mais encantadora que ela possa ser, há sempre um espírito oculto, cujo vulto e contornos pintados são apenas formas de manifestação, e é com esse espírito que eu desejo harmonizar-me. Cansei-me das declarações inteligíveis dos homens e das coisas. Procuro agora o lado místico da Arte, da Vida e da Natureza. É absolutamente necessário que eu o encontre em algum lugar.

Tenho uma estranha nostalgia pelas coisas simples e primitivas, tais como o mar, que é para mim uma mãe tão poderosa quanto a Terra. Parece-me que contemplamos demais a natureza mas convivemos muito pouco com ela. Entendo agora que a atitude dos gregos diante dela era extremamente sadia: eles jamais falavam sobre o crepúsculo ou discutiam o tom que as sombras lançavam sobre a relva. Mas sabiam que o mar fora feito para os nadadores e a areia para os pés dos corredores. Amavam as árvores pelas sombras que elas lançavam e a floresta pelo seu silêncio ao meio-dia. O vinhateiro cobria os cabelos com hera para proteger- se dos raios do sol enquanto se inclinava sobre as plantas tenras, e para os artistas e os atletas, os dois modelos que a Grécia nos legou, eles teciam grinaldas com as folhas do louro e da salsa selvagem que, de outro modo, não teriam qualquer utilidade para o homem.

Chamamos a época em que vivemos de utilitária, mas a verdade é que não sabemos usar praticamente nenhuma das coisas de que dispomos. Esquecemos que a água limpa, o fogo purifica e que a Terra é a mãe de todos nós. Em consequência, a nossa arte é da lua e brinca com as sombras, enquanto que a arte grega é do sol e trata diretamente com as coisas. Tenho certeza de que há pureza nas forças mais elementares e quero voltar a elas e viver na sua presença.

Oscar Wilde, De Profundis

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17.11.20

Um homem cujo único objectivo seja tornar-se um membro do parlamento, um bem-sucedido comerciante de secos e molhados, um advogado famoso, um juiz ou qualquer outra coisa igualmente enfadonha, sempre consegue realizá-lo. E esse é o seu castigo: aqueles que sonham com uma máscara são condenados a usá- la.

Mas quando se trata das forças dinâmicas da vida e daqueles que personificam essas forças, tudo se torna mais difícil. As pessoas que desejam apenas atingir a autorrealização jamais sabem para onde estão indo. Nem podem sabê-lo. Num certo sentido, o oráculo tinha razão quando afirmou que o importante é conhecer-se a si mesmo. Essa é a primeira meta do conhecimento. Mas reconhecer que a alma do homem é incognoscível é o objectivo supremo da sabedoria. O mistério final somos nós mesmos. Quando tivermos conseguido pesar o sol na balança e medido os degraus da lua e desenhado o mapa dos sete céus, estrela por estrela, ainda restaremos nós. Quem pode calcular a órbita da própria alma? Quando o filho saiu em busca dos bens de seu pai, ignorava que encontraria um sacerdote à sua espera com a própria crisma da coroação e que a sua alma já era a alma de um rei.

Oscar Wilde, De Profundis

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AD AMICOS

16.11.20

Em vão lutamos. Como névoa baça,
A incerteza das cousas nos envolve.
Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,
Nas suas próprias redes se embaraça.

O pensamento, que mil planos traça,
É vapor que se esvai e se dissolve;
E a vontade ambiciosa, que resolve,
Como onda entre rochedos se espedaça.

Filhos do Amor, nossa alma é como um hino
À luz, à liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d’um pressentir divino;

Mas n’um deserto só, árido e fundo,
Ecoam nossas vozes, que o Destino
Paira mudo e impassível sobre o mundo.

Antero de Quental, Os Sonetos Completos

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15.11.20

Eu não conheço fisionomia mais difícil de desenhar, porque nunca vi natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possível desdobrar um homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Antero de Quental dava alma para uma família inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a inteligência mais crítica, o instinto mais prático, a sagacidade mais lúcida, que eu conheço. É um poeta que sente, mas é um raciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa.

Inventa, e critica. Depois, por um movimento reflexo da inteligência, dá corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou. — O seu temperamento apresenta um contraste correlativo: é meigo como uma criança, sensitivo como uma mulher nervosa, mas intermitentemente é duro e violento.

É fraco, portanto? Não. A vontade, em obediência à qual, e com esforço, se faz colérico, fá-lo também forte — desta força persistente, raciocinada e na aparência plácida, como a superfície do mar em dias de bonança. O Oceano, porém, é interiormente agitado pelo gulf stream quente e invisível: também às vezes a placidez extrema da sua face encobre ondas de aflição que sobem até aos olhos e rebentam em lágrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade.

É destas crises que nasceram os seus versos, porque Antero de Quental não faz versos à maneira dos literatos: nascem-lhe, brotam-lhe da alma como soluços e agonias. Mas, apesar disso, é requintado e exigente como um artista: as suas lágrimas hão de ter o contorno de pérolas, os seus gemidos hão de ser musicais. As faculdades artísticas geradoras da estatuaria e da sinfonia são as que vibram na sua alma estética. A noção das formas, das linhas e dos sons, possui-a num grau eminente: não já assim a da cor nem a da composição. Aos quadros chama painéis com desdém, e por isso mesmo tem horror à descrição e ao pitoresco. É artista, no que a arte contém de mais subjetivo. A sua poesia é escultural e hierática, e por isso fantástica. É exclusivamente psicológica e dantesca: não pode pintar, nem descrever: acha isso inferior e quase indigno.

Os seus versos são sentidos, são vividos como nenhuns; mas o sentir e o viver deste homem é de uma natureza especial que tem por fronteiras físicas as paredes do seu crânio, mas que não tem fronteiras no mundo real, porque a sua imaginação paira librada nas asas de uma razão especulativa para a qual não há limites.

O poeta é por isso um místico, e o crítico um filósofo. O misticismo e a metafísica, o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a inteligência, combatem-se, às vezes dilacerando-se. Eis aí a explicação desta poesia que é o retrato vivo do homem. O génio, esse quid divinatório, que não é honra para nenhuma criatura possuir, porque só nos dá merecimento aquilo que ganhámos à força de inteligência e de vontade; o génio, que é uma faculdade tão acidental como a cor dos cabelos, ou o desenho das feições; o génio, que pode andar ligado a uma inteligência medíocre, mas que o não anda no caso de Antero de Quental — é o predicado particular e a chave do enigma deste homem. O génio pressupõe a intuição de uma verdade visceral ou fundamental da natureza. Essa intuição, essa aspiração absorvente, é para o nosso poeta a síntese da verdade racional ou positiva e do sentimento místico: uma poesia que exprima o raciocínio, ou antes uma filosofia onde caibam todas as suas visões. O próprio do génio é querer realizar o irrealizável; é ser quimérico, no sentido crítico da palavra, quando por quimera entendemos uma verdade essencial que não pode todavia reduzir-se a fórmulas compreensíveis, ou uma cousa cuja realidade se sente, sem se poder ver.

Dos aspectos quase inesgotavelmente variáveis desta singular fisionomia de homem, desta mistura excepcional de pensamentos e de temperamentos num mesmo individuo, resulta porém um tipo de sinceridade e de retidão mais singular ainda, porque mais facilmente podia resultar dela um grande cínico. É sobretudo um estoico, sem deixar de ter bastante de cético; é um místico, mas com uma forte dose de ironia e humorismo; e um misantropo, quando não é o homem do trato mais afável, da convivência mais alegre; é um pessimista, que todavia acha em geral tudo ótimo. Intelectualmente é a fisionomia mais dúbia, complexa e contraditória por vezes; moralmente é o carácter mais inteiro e melhor que existe. A sua inteligência encontra-se permanentemente no estado de alguém que, querendo ir para um sitio, resiste por não querer ao mesmo tempo, sem todavia ter razões bastantes para querer nem também para não querer. O núcleo da sua personalidade, se a encaramos pelo lado praticamente humano, está na energia do seu querer moral, e não na lucidez do seu pensamento; embora tenha a pretensão de julgar que a sua vontade obedece sempre à sua razão. É verdade que dentro de si tem permanentemente um espelho facetado que representa e critica as modalidades do seu pensamento; mas, por isso mesmo, vê ou inventa faces de mais às cousas, e também por vezes o cristal embacia. O que nunca esmorece é a bondade luminosa da sua alma. É um homem fundamentalmente bom.

A complexidade do seu espírito dá-lhe uma variedade de aptidões singular. Conversador como poucos, fácil, espontâneo, original e sugestivo, irónico, humorista, espirituoso, descendo até à própria charge, não há ninguém como ele para soltar o carro da sua fantasia critica na ladeira de uma tese, e, explorando-a em todos os sentidos, arquitetar uma teoria. Os seus opúsculos em prosa (da melhor prosa portuguesa deste tempo) têm em geral este carácter. São lógicos, são bem deduzidos — sem serem suficientemente pensados. São frutos da imaginação; são conversas escritas, dessas conversas que durante horas seduzem os que o ouvem — porque é um charmeur.

Ele próprio se embriaga, não com as suas palavras, mas sim com aquela teoria passageira que inventou ad hoc, e, quando alguém lhe objecta um pequeno senão, todavia essencial ao seu edifício lógico, resiste, defende-se, irrita-se às vezes, mas por fim é ele próprio que, com um dito, desfaz toda a construção. Seria um orador, um jornalista de primeira ordem, se não tomasse apenas a sério a sua missão de poeta, ou antes de filósofo. Depois de tudo isto dirão pessoas pouco dadas ao estudo do animal homem que Antero de Quental é um assombro. Longe disso. A sua força é a prodigalidade com que a natureza dotou o seu espírito; mas essa força é uma fraqueza. Tem demasiada imaginação para ver bem; e por outro lado o raciocínio crítico peia-lhe os voos luminosos da fantasia. Vê de mais para poder ser ativo, ou não tem a energia correspondente à sua visão. Se a tivesse, seria verdadeiramente um assombro. A imaginação e a razão, irredutíveis nos cérebros humanos com as circunvoluções limitadas que contêm, são igualmente poderosas no seu cérebro para que qualquer delas domine. Lutam em permanência, procurando entender-se, combinar-se, penetrar-se, e, no desejo quimérico da síntese, desequilibram o homem, atrofiando-lhe a energia ativa. Ainda assim, felizes daqueles cuja inércia desse um livro comparável a este!

Mas é que as suas páginas foram escritas com sangue e lágrimas! E doe ver a vida do mais belo espírito consumir-se em agonias de uma alma em luta comigo mesmo! O comum da gente, ao ler as páginas deste volume, dirá então: Quantas catástrofes, que desgraças, este homem sofreu! que singular hostilidade do mundo para com uma criatura humana! — E todavia o mundo nunca lhe foi propriamente hostil, nenhuma desgraça o acabrunhou; a sua vida tem corrido serena, plácida, e até para o geral da gente em condições de felicidade.

É que o geral da gente não sabe que as tempestades da imaginação são as mais duras de passar! Não há dores tão agudas como as dores imaginárias. Não há problemas mais difíceis do que os problemas do pensamento, nem crises mais dolorosas do que as crises do sentimento. As agonias dilacerantes da morte com as ânsias do estertor, os horrores mais inverosímeis dos crimes monstruosos, as aflições mais pungentes da saudade, as tristezas mais dolorosas da solidão, as lutas do dever com a paixão, os gritos do homem arruinado, os ais da orfandade faminta… tudo, tudo, quanto no mundo pode haver de doloroso, desde a miséria até à prostituição, desde o andrajo até ao veludo arrastado pela imundície, desde o cardo que dilacera os pés até ao punhal que rasga o coração: tudo isso é menos, do que a agonia de um poeta vendo passar diante de si, em turbilhão medonho, as lúgubres misérias do mundo. Todas as aflições têm o seu quê de imaginativas, e por isso há apenas uma espécie de homens que não sentem: são os cínicos, esses que perderam os nervos da moralidade, os anestesiados do sentimento.

Quando se é poeta como Antero de Quental, a imaginação exacerbada vibra como as harpas que os gregos expunham às virações da brisa nos ramos das árvores. Nenhum dedo lhes feria as cordas, e todavia tocavam! Nenhuma dessas desgraças do mundo feriu a harpa da vida do poeta; e todavia essa harpa geme e chora, soluça e grita, porque pelas suas cordas passa o vento agreste das ideias, passa o eco ululante do egoísmo dos homens, aflitivo como os uivos de uma alcateia de lobos famintos.

Excerto do prefácio escrito por Oliveira Martins acerca de Antero de Quental, no livro Os Sonetos Completos de Antero de Quental

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10.11.20

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

 

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.

 

A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.

Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.

 

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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10.11.20

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.

O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.

Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

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