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15 de Agosto

19.07.21

Passeando às margens do rio, com as montanhas cobertas de nuvens, houve instantes de profundo silêncio, semelhantes aos brilhantes retalhos do céu azul entre as nuvens que se separavam. Era uma noite fria, cortante, com uma brisa que vinha do Norte. A criação não é para os talentosos, para os bem dotados; esses conhecem a criatividade, mas nunca a criação. Criar é transcender o pensamento, a imagem, a palavra e a expressão. A criação é intransmissível, porquanto não pode ser formulada, nem tão-pouco expressa em palavras. Podemos apenas senti-la em estado de total lucidez. Mas é impossível utilizá-la ou colocá-la à venda no mercado.

O cérebro, com as suas inúmeras e complexas reacções, não pode compreendê-la, porquanto não dispõe de meios para entrar em contacto com a criação; ele é incapaz de fazê-lo. O conhecimento é um obstáculo e, sem auto-conhecimento, nada se cria. O intelecto, o afiado instrumento do cérebro, não pode conceber a criação. O cérebro, com suas secretas exigências e buscas, com suas numerosas e astutas virtudes, deve permanecer quieto, mudo, e ao mesmo tempo, alerta e silencioso. Assar um pão ou escrever um poema não é criação. Para tanto, tem de ser natural e espontâneo, e, livre de conflito ou dor, o findar de toda actividade cerebral. Não deve haver nem sombra de conflito ou imitação.

Só então ocorre o espantoso movimento da criação. Ela surge da completa negação; sem ser um processo dependente do tempo, a criação transcende o espaço. Resulta da morte total, do completo aniquilamento.

Havia silêncio dentro e fora de nós, ao acordarmos, hoje de manhã. O corpo e o cérebro, sempre tão calculista e avaliador, estavam calmos e imóveis, embora altamente sensíveis e atentos. E, mansamente, ao raiar do dia, brotando de uma fonte desconhecida, sobreveio-nos aquela força, com a sua energia e pureza. Parecia não ter raízes, não ter causa, mas estava lá, intensa e sólida, de incalculável dimensão e profundidade. Permaneceu assim durante algum tempo, medido pelo relógio, e se foi, como uma nuvem que desaparece atrás da montanha.

Cada vez existe algo de “novo” naquela bênção, uma qualidade “nova”, um “novo” perfume; no entanto, é ela imutável. É o próprio incognoscível.

0 processo esteve agudo durante certo tempo e ainda perdura, porém de forma atenuada. Tudo é estranho e imprevisível.

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

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Sentados no carro, ao lado de urn ruidoso regato que descia da montanha, por entre férteis campos verdejantes, e sob o céu do entardecer, a incorruptível inocência lá estava, bela na sua austeridade. A imobilidade do cérebro fora por ela atingido.

O cérebro alimenta-se da reação e da experiência; vive de experiência. Mas a experiência sempre limita e condiciona; a memória é o mecanismo da acção. Sem a experiência, sem o conhecimento e sem a memória, é impossível agir; mas tal acção é fragmentada, limitada. O raciocínio, o pensamento organizado são sempre incompletos; é estéril a ideia, a reacção do pensamento, e a crença constitui o refúgio do pensar. A experiência serve apenas para reforçar, positiva ou negativamente, o pensamento.

O acto de experimentar é condicionado pela experiência, pelo passado. A liberdade está no esvaziar a mente de toda a experiência. Quando o cérebro cessa de se alimentar da experiência, da memória e do pensamento, quando morre para o acto de experimentar, a sua atividade deixa de ser egocêntrica. Ele busca, então, o seu alimento em outras fontes. Eis o que torna a mente religiosa.

Ao despertarmos, esta manhã, fora do alcance da meditação ou do pensamento e longe das ilusões criadas pelos sentimentos, havia uma luz intensa bem no centro do cérebro e da consciência do próprio ser. Era uma luz que não projectava sombras, nem se enquadrava em qualquer dimensão. Permanecia imóvel. Com essa luz, achava-se presente aquela incalculável força e beleza, inacessível ao pensamento e ao sentimento.

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

*  A partir desta data, as anotações foram feitas num outro caderno, de maiores dimensões, em que, pela primeira vez, constava o ano em que foram compostas.

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4 de Agosto

18.07.21

Despertámos cedo; ainda estava escuro, mas logo a aurora surgiria; para o leste, havia uma pálida luz distante. O céu muito claro e o contorno das montanhas e morros já era visível. Havia grande silêncio.

Repentinamente, quando ainda no leito, com o pensamento parado e distante, sem o mais leve frémito do sentimento, do vasto e profundo silêncio nasceu aquilo que era agora o inabalável e inesgotável ser. Firme, sem peso, sem medida; ali estava e nada mais existia além da completa solidão. As palavras sólido, imóvel, imperecível, de maneira alguma transmitem a qualidade da eterna estabilidade. Palavra alguma serviria para comunicar aquela presença. Autêntica, exprimia a totalidade e a essência de todas as coisas.

A sua pureza permaneceu, varrendo todo pensamento e ação. Assim como não podemos identificar-nos com as águas de um rio caudaloso, era impossível identificar-nos com aquilo. Nem poderia haver união entre nós e o que não tem forma, medida, qualidade. A coisa existe; eis tudo.

Como tudo se tornou tão amadurecido e delicado! E, estranhamente, toda a vida estava ali contida — como uma folha nova, sem defesa.

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

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29 de Julho

18.07.21

Estivemos* reunidos com algumas pessoas, e, ao se retirarem, sentimo-nos como que no limiar entre dois mundos. E, logo após, ressurgiu o mundo do processo e daquela infinita intensidade. Porquê esta divisão?

As pessoas com quem falámos não eram sérias; ainda que pensassem sê-lo, a sua seriedade era apenas superficial. Na impossibilidade de haver uma comunhão com elas, voltámos a sentir-nos constrangidos. De qualquer maneira, fora uma estranha experiência.

Enquanto conversávamos, um pequeno trecho do regato sobressaía por entre as árvores. Nada tinha de extraordinário, cena habitual do quotidiano, mas, enquanto olhávamos, várias coisas aconteciam, não apenas exteriormente, porém havia uma percepção global. Para haver madureza, é indispensável existir: 1. total simplicidade, que surge com a humildade, não em relação a coisas ou posses, mas na própria essência do ser. 2. paixão intensa, não apenas física. 3. beleza, sensibilidade tanto ao mundo exterior quanto àquela beleza que transcende o pensamento e o sentimento. 4. amor, a totalidade do amor, não aquilo que contém o ciúme, o apego, a dependência, ou o que se divide em carnal e divino. Referimo-nos à sua imensidão. 5. uma mente que, sem qualquer objectivo, penetre em suas próprias e imensuráveis profundezas sem barreiras, livre para vagar sem o limite do tempo-espaço.

O percebimento destas coisas e de todas as suas implicações surgiu de repente - apenas à simples visão de um riacho, entre galhos e folhas mortas, num dia chuvoso e sombrio.

Enquanto conversávamos, sem nenhum motivo especial — pois o assunto não era importante — vindo de enormes profundezas, subitamente, sentimos a poderosa e destruidora chama da criação. O seu poder se antecede à própria origem do universo, inatingível, por sua mesma força, que tornava impossível dele aproximar-nos. Só existia aquela poderosa força, aquela assombrosa imensidão.

Parte desta experiência deve ter “continuado” durante o sono, porque, ao acordarmos hoje bem cedo, a intensidade do processo nos despertou. Nem pensamentos, nem palavras podem descrever a singularidade, o amor e a beleza contidos naquele acontecimento. Imaginação alguma o conceberia, nem tampouco se tratava de uma ilusão. Sua força e pureza são inacessíveis a um cérebro, à mente sagaz. Estão fora do alcance das capacidades humanas.

* Primeira pessoa do plural em lugar da primeira do singular. Sempre que Krishnamurti se refere a si mesmo utiliza a forma “ nós” . (N.T.)

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

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...

18.07.21

Como é fácil iludirmo-nos, projectar fantasias que chegam a ser experimentadas, sobretudo quando se trata do prazer. Não há ilusão, nem decepção, se não existe o desejo, consciente ou inconsciente, de experimentar, se nada buscamos, ou se estamos indiferentes a toda a forma de experiência.

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

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