Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Verdade! – nervoso – era e ainda sou muito, muito terrivelmente nervoso; mas porque é que dirão que sou louco? A doença tem-me aguçado os sentidos – não destruído – não entorpecido. Acima de tudo, tinha um apurado sentido de audição. Ouvia todas as coisas, no céu e na terra. Ouvia muitas coisas no inferno. Como é que sou louco, então? Prestai atenção! E observai a forma sadia, a forma calma com que vos contarei toda a história.
É impossível dizer como, de início, a ideia me veio ao cérebro; mas uma vez concebida, perseguia-me dia e noite. Razão não havia nenhuma, Cólera não havia nenhuma. Eu gostava do velho. Nunca me havia tratado mal. Nunca me havia insultado. Eu não desejava o seu ouro, de forma alguma. Acho que era o seu olhar. Sim, era isso! Um dos olhos parecia o de um abutre – um olho azul pálido, com uma película a cobri-lo. Sempre que me mirava, o meu sangue gelava; e assim, aos poucos – muito lentamente – decidi-me a tirar a vida ao velho e a ver-me livre daquele olho para sempre.
Ora aqui é que reside o problema. Imaginam-me louco. Os loucos nada sabem. Mas deviam ter-me visto. Deviam ter visto a forma sábia com que procedi – com que cautelas – com que precaução – com que dissimulação me fiz ao trabalho! Nunca fui tão amável com o velho como durante toda a semana, antes de o matar. E todas as noites, por volta da meia-noite, girava o ferrolho da sua porta e abria-a – oh, tão devagarinho! E depois, quando a abertura era suficiente para a minha cabeça, introduzia uma lanterna, completamente tapada, tão tapada que luz nenhuma se projectava para fora, e então enfiava lá a cabeça. Oh, como haviam de ter rido ao ver com que astúcia eu o fazia. Movia-a lentamente – muito, muito lentamente, afim de não perturbar o sono do velho. Levava uma hora a enfiar a cabeça dentro da abertura de forma a poder vê-lo deitado na cama. Ah! Um louco teria sido tão prudente assim? E então, quando a minha cabeça estava bem dentro do quarto, abria muito cuidadosamente a tampa da lanterna – oh, tão cuidadosamente (pois que as dobradiças rangiam) – abria só o suficiente de modo a que apenas um ténue raio de luz incidisse sobre o olho de abutre. E assim fiz durante sete longas noites – todas as noites, exactamente à meia-noite – mas encontrava sempre o olho fechado; e assim era impossível fazer o trabalho; pois que não era o velho que me atormentava, mas o seu olho diabólico. E todas as manhãs, quando o dia nascia, eu entrava descaradamente no quarto e falava com ele sem receios, tratando-o pelo nome num tom carinhoso e perguntando-lhe como havia passado a noite. Por aí pode ver-se que ele teria de ser um velho mesmo muito perspicaz para suspeitar que, todas as noites, exactamente à meia-noite eu ia vigiá-lo enquanto dormia.
Na oitava noite, tive mais cuidados do que até então havia tido ao abrir a porta. O ponteiro dos minutos de um relógio movia-se mais depressa que as minhas mãos. Nunca antes daquela noite eu havia sentido a dimensão dos meus próprios poderes – da minha argúcia. Mal conseguia esconder a minha sensação de vitória. Pensar que, ali estava eu, a abrir a porta, a pouco e pouco, sem que ele sonhasse sequer com os meus actos ou pensamentos secretos. Ri entre dentes, da ideia; e talvez ele me tenha ouvido pois que se mexeu de repente na cama, como se estivesse assustado. Se pensam que recuei, enganam-se. O quarto dele estava escuro como breu, uma escuridão cerrada (pois que os postigos estavam completamente fechados devido ao medo dos ladrões), por isso eu sabia que ele não conseguia ver a abertura da porta, e assim continuei a abri-la, mais e mais.
Já tinha a cabeça lá dentro e estava prestes a abrir a lanterna, quando o meu polegar escorregou na tampa de lata e o velho deu um salto na cama, a gritar - «Quem está aí?»
Mantive-me quieto e nada disse. Durante uma hora inteira não mexi sequer um músculo, mas entretanto não o ouvi deitar-se. Continuava sentado na cama, à escuta; tal qual eu havia feito, noite após noite, escutando o bater dos relógios da morte que infestavam a parede.
Pouco depois ouvi um gemido e senti que era o gemido do terror da morte. Não era um gemido de dor ou de sofrimento, oh não! – era o som grave e abafado que surge do fundo da alma carregada de medo. Eu conhecia bem tal som. Muitas vezes à noite, exactamente à meia-noite, enquanto todo o mundo dormia, este som brotava do meu próprio peito, agravando com o seu terrível eco, os terrores que me consumiam. Disse que o conhecia bem. Eu sabia o que o velho estava a sentir e tinha pena dele, embora no fundo me risse de satisfação. Sabia que ele tinha ficado deitado mas acordado desde o primeiro ligeiro barulho, quando se mexeu na cama. A partir daí os seus medos foram crescendo. Ele tinha estado a tentar não lhes dar importância, mas sem sucesso. Ele dizia para si próprio «É só o vento no fumeiro – é apenas um rato a passar no chão», ou «Não é senão um grilo que trinou uma só vez». Sim, ele tentava tranquilizar-se com essas suposições, mas em vão. Tudo em vão; porque a Morte, ao acercar-se dele, fez pairar a sua sombra negra diante dele, e envolveu a vítima.
Edgar Allan Poe
Vou dizer como foi: aluguei uma casa. Só tinha uma cama para pôr lá dentro, nada mais. Bom. Alguns livros e um gira-discos. Sim. Pois meti tudo isso dentro da casa. Vê-se como sobravam quartos? Pus-me a andar pela casa, entrando e saindo dos quartos. Que se passava? Não compreendi logo. Parecia-me que sempre fizera aquilo, nunca na vida fizera nada senão andar numa casa vazia, de quarto para quarto, ao longo de corredores. Não, não é simbólico. A não ser no sentido em que tudo é simbólico. Aconteceu. Comecei então a escrever aquilo mesmo. A escrita foi-me conduzindo a outro tempo, um tempo simétrico. À matéria cristalográfica do tempo. Na infância havia uma casa onde eu andara sempre, por corredores e quartos. Como direi? Escrevendo, descobrira que cada facto ocorrido hoje correspondia a outro ocorrido na infância. Mas isso era também outra coisa. Verifiquei por exemplo que, ao escrever sobre o passado, eu o atraiçoava, revelando-o apenas como visão presente. Assim, a experiência é mantida como hipótese de investigação que acolhe sempre a dúvida, ou dela se alimenta. Relatos de sonhos, veja-se, tornam-se mais seguros que relatos de acontecimentos. O sonho pode propor uma explicação exemplificativa do facto que se narra. As relações entre as diversas partes desta realidade descontínua são esquivas, móveis, ambíguas.
Compreende-se que tipo de escrita implica tal investigação? E, depois, o género de materiais que poderia utilizar? Recorri à parábola, à alegoria, à metáfora. A realidade do registo é garantida pela convicção das hipóteses, pelo tecido plausível dos enigmas.
Convinha a proliferação dos planos de tempo. Acumulei estratos. Importava encontrar uma tensão central, instalar-se nela. Poder-se-ia então correr todos os riscos, pois existia uma zona sólida aonde regressar, e de onde partir de novo. Era a minha segurança.
Trata-se de «escrita circular», naquele âmbito em que se concebe a volta ao ponto de partida. E também porque nenhuma solução é possível, por nunca se poder provar a hipótese de verdade da coisa escrita. O texto é fechado. Mas também aberto. Fechado sobre si, pois o máximo e o melhor seria experimentar, dentro do mesmo espaço, uma nova maneira de considerar os mesmos acontecimentos. Aberto, porque as possibilidades desta consideração se mostravam praticamente sem número.
Desapareceu por volta de 1960. Uma data, o fim da juventude. Houve uma escrita que designava e consignava uma experiencia e era, mal sabia eu, um aviso do tempo e do mundo: fim da tua parte de juventude. Soube no fim da juventude - e de que estranha maneira! - que ela se completara, e se abria uma nova possibilidade. E estava acabada, acabada.
Tudo isto é em si mesmo fácil, mas é tão difícil.
Escrevi em torno de três ou quatro tópicos, e estava a escrever sobre toda a minha juventude, e a sua morte, e a sua significação (se a havia). Enfim, está lá, acabou-se.
Cada texto possui o seu natural movimento interior. Há uma escrita que corresponde ao ritmo brusco, obsessivo, repetitivo, suspenso, recorrente, problemático, descontínuo da investigação que ela mesma, escrita, é - e da realidade que cria.
Certas obsessões (até vocabulares) iluminam-se durante a realização de um texto. A escrever é que se aprende o que somos. Referências a objectos, situações, movimentos, aparecem como imagens ou metáforas de experiências muito antigas, como elementos da composição interior, portanto: do mundo, da vida.
A experiência é uma invenção.
Sou o registo vivamente problemático. A memória é improvável. A biografia é uma hipótese cuja contradição não esgoto. E quando uma criatura não atinge as garantias da sua criação, não encontra provas da sua existência. Poderia escrever cem relatos diversos. Neste sentido seriam todos falsos. Mas seriam verdadeiros por serem todos uma invenção viva.
A realidade é apenas o que se propõe como tal. Mas devemo-nos munir sempre de uma ironia que coloque dubitativamente a nossa mesma proposta. A vida assenta na tensão que as desavindas propostas de verdade estabelecem entre si.
Ninguém acrescentará ou diminuirá a minha força ou a minha fraqueza. Um autor está entregue a si mesmo, corre os seus (e apenas os seus) riscos. O fim da aventura criadora é sempre a derrota irrevogável, secreta. Mas é forçoso criar. Para morrer nisso e disso. Os outros podem acompanhar com atenção a nossa morte. Obrigado por acompanharem a minha morte.
Nada fornece qualquer garantia a ninguém. Existimos em suspensão. Há muitas maneiras de respirar e deixar de respirar. Temos os nossos ritmos. É preciso viver e morrer com eles.
Herberto Helder, Photomaton & Vox
Para fazeres o que fazes, precisas de caminhar. É a caminhar que te vêm as palavras, que ouves os ritmos das palavras que vais escrevendo mentalmente. Um pé à frente, depois o outro, a batida dupla do teu coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas, dois pés. Isto, e depois aquilo. Aquilo, e depois isto. A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que as palavras tenham significado, possam às vezes ter significado, é na música que os significados começam. Sentas-te à mesa para escrever fisicamente as palavras, mas na tua cabeça continuas a caminhar, sempre a caminhar, e o que ouves é o ritmo do teu coração, o batimento do teu coração. Mandelstam: «Gostava de saber quantos pares de sandálias gastou Dante enquanto trabalhava na Commedia.» A escrita é uma forma de dança.
Sabes o que eu era, como vivia? Conheces
o desespero; então
o Inverno há-de fazer-te sentido.
Nunca esperei sobreviver
com a terra a sufocar-me. Não esperei nunca
tornar a acordar, sentir
na terra húmida o meu corpo
capaz de reagir de novo, de se lembrar
depois de tanto tempo como abrir-se
de novo à luz fria
da mais primeira Primavera –
com medo, sim, mas de novo entre vós
chorando, sim, arriscando a alegria
ao vento agreste e nu do mundo novo.
Os antigos filósofos (naturalmente) pensavam muito mais do que liam. Eis porque se agarravam tão tenazmente ao concreto. A imprensa modificou as coisas. Lê-se mais do que se pensa. Não temos hoje filosofias mas apenas comentários. É o que diz Gilson ao afirmar que à idade dos filósofos que se ocupavam de filosofia sucedeu a idade dos professores de filosofia que se ocupam dos filósofos. Há nesta atitude ao mesmo tempo modéstia e impotência. E um pensador que começasse o seu livro por estas palavras: «Tomemos as coisas a partir dos seus princípios» ficaria exposto aos sorrisos. Chegou-se ao ponto em que um livro de filosofia que fosse hoje publicado e não se apoiasse em nenhuma autoridade, citação, comentários, etc., não seria tomado a sério. E no entanto…
Albert Camus, Primeiros Cadernos (caderno n.º 4, Janeiro 1942 / Setembro 1945)
Sondar
a linguagem das trevas
dormir
na neve dos limites
atravessar
flores distraídas
Decifrar
numa pedra fria
letras a arder
entrar
em comboios remotos
no olho gigante
das estações do fim do mundo
Ser
um sinal
lançado ao acaso na noite
deixar
noutra boca
o gosto de uma ausência
Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco
Quem não quiser dar o seu «sim» à vida, devia pelo menos ser capaz de dizer o «não» dos santos.
Robert Musil, O Homem sem Qualidades, volume I
Um sábio perguntava a um louco qual era o caminho da felicidade. O louco respondeu-lhe imediatamente, como alguém a quem se perguntava o caminho da cidade vizinha: «Admira-te a ti mesmo e vive na rua». «Alto lá», exclamou o sábio, «pedes demais, basta já que nos admiremos!» E o louco respondeu logo: «Mas como admirar sem cessar se não nos desprezarmos constantemente?»
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência
Quanto a mim, escrevo só para a minha pessoa e declaro, de uma vez para sempre, que se escrevo como se estivesse a dirigir-me aos leitores, faço-o exclusivamente por fingimento, porque é mais fácil para mim escrever desta forma. É apenas uma forma, uma forma sem importância, nunca terei leitores. Já o declarei.
Não quero envergonhar-me de nada na redacção dos meus apontamentos. Não vou preocupar-me com a ordem e o sistema. Irei apontando as coisas à medida que me venham à ideia.
Por exemplo: alguém poderá agarrar-me na palavra e perguntar-me: se, na verdade, não está a contar com leitores, por que entra então em acordos consigo mesmo, ainda por cima no papel, como sejam: que não se preocupará com a ordem e o sistema, que vai escrever à medida que for recordando, etc., etc.? Para que são essas explicações? Por que pede desculpa?
- Porque sim - respondo eu.
Aliás, existe aqui toda uma psicologia. Talvez porque eu seja simplesmente um cobarde. Ou talvez porque imagine intencionalmente um público para poder comportar-me de modo mais decente enquanto escrevo. Pode haver um milhar de causas.
Mais uma coisa: porque e para quê, no fundo, quero escrever? Se não é para o público, poderia recordar tudo mentalmente, sem pô-lo no papel, não é verdade?
Pois é, mas no papel a coisa parece soar com mais solenidade. Há nisso algo de imponente, o juízo de mim mesmo é mais intenso, há mais requinte no estilo. Além disso, é possível que o processo de escrever me alivie. Por exemplo, hoje, pesa-me muito uma recordação antiga. Surgiu-me nitidamente há dias e, desde então, meteu-se em mim como aqueles musicais enfadonhos que nunca mais nos largam mas de que temos de libertar-nos. Tenho centenas de recordações deste género, e de vez em quando uma destaca-se do lote e começa a pesar-me. E acredito, sabe-se lá porquê, ver-me livre dela se a apontar. Por que não experimentar?
Finalmente: aborreço-me de não fazer nada, por isso, escrever é como um trabalho. Dizem que o trabalho torna o homem bom e honesto. Pois bem, aqui está pelo menos uma chance.
Fiódor Dostoiévski, Cadernos do Subterrâneo (excerto)