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Perdi-me nas teias do visível.
Respirei de mais.
Abracei todos os fantasmas que me formaram gente.
Toquei a morte – e por teimosia regressei.
Tinha de cuidar – de ti.
E (ainda) precisava de ouvir o ranger do mundo, velho soalho dos meus
peregrinos pés.
Sustenho dentro o ar
:
pesado.
Há coisas (ainda) a esquecer. Por elas sonâmbulo caminho.
C o n t i g o.
Deitar-nos-emos sob a mágica abóbada, na névoa do esquecimento cansados, sobre o húmus fértil da Vida. E Despertaremos nesse outro lado
:
das coisas Invisíveis.
Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.
Quem tem
a chave da cela
que está na tua mão?
Valeria Pariso
SOBRE as palavras, sua importância e oportunidade, seu valor, bastas vezes me tenho detido.
No próprio acto de escrever (como as palavras, afinal, é que o permitem) esta reflexão me acode e me peia tanta vez: a linguagem antecede ou sucede o pensamento? que parte faz dele?
Nem a mim própria me pareça tola a minha pergunta!
A linguagem aflui-nos, ou vem-nos num certo encadeamento mental em que nos envolvemos, em que penetramos, como um surto natural, mais ou menos fácil, do espírito. (Lembremo-nos dos faladores solitários, faladores sem ouvintes.) E assim, sobre uma rápida, esporádica ou fugidia ideia, qualquer ideia ou sensação – tão difícil é desembaraçar estas daquelas! – as palavras entram num jogo de certa independência, mudas ou articuladas, ou até mesmo gesticuladas e vagas, sobrepondo-se à tal coisa (ideia ou sensação), perseguindo-a e fugindo-lhe e enredando-se nela… confundindo-se e dilatando-se à custa dela, a ponto de a afogarem, não poucas vezes… de a excederem!
É que as palavras têm espírito e vida por si próprias. O que tão bem se patenteia musical e sentimentalmente no verso. Um espírito que arrasta e sujeita os seus forçados manejadores, mau grado o desejo de supremacia e de domínio da parte destes.
Mercê das palavras usadas se salta de um para outro lado… Chegando nós a tornar-nos confusos e prolixos, pouco substanciosos, acorrentados àquele tal sortilégio.
Mas é amor o que as palavras em nós despertam! Um gosto de as seguir, de as explorar e até de as esperar pacientemente para que qualquer coisa interior, nossa, saia do seu limbo.
E não serão elas próprias que a criam, frequentemente?
Irene Lisboa
Vou dizer-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.
Há muitas coisas que parecem pesadas ao espírito, ao espírito robusto e paciente, e todo imbuído de respeito; a sua força reclama fardos pesados, os mais pesados que existam no mundo.
"O que há de mais pesado para transportar? - pergunta o espírito transformado em besta de carga, e ajoelha-se como o camelo que pede que o carreguem bem.
Qual é a tarefa mais pesada, ó heróis - pergunta o espírito transformado em besta de carga - para que a assuma, para que goze com a minha força?
Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar refulgir a nossa loucura para zombarmos da nossa sensatez?
Não será abandonar uma causa triunfante? Escalar altas montanhas a fim de tentar o Tentador?
Não será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento, e obrigar a alma a jejuar por amor da verdade?
Ou será estar enfermo e despedir os consoladores e estabelecer amizade com os surdos que nunca ouvem o que queremos?
Ou será submergirmo-nos numa água lodosa, se esta for a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os ardentes sapos?
Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma que nos procura assustar?"
Mas o espírito transformado em besta de carga toma sobre si todos estes pesados fardos; semelhante ao camelo carregado que se apressa a ganhar o deserto, assim ele se apressa a ganhar o seu deserto.
E aí, naquela extrema solidão, produz-se a segunda metamorfose: o espírito torna-se leão. Pretende conquistar a sua liberdade e ser o rei do seu próprio deserto.
Procura então o seu último senhor; será o inimigo deste último senhor e do seu último Deus; quer lutar com o grande dragão, e vencê-lo.
Qual é este grande dragão a que o espírito já não quer chamar nem senhor, nem Deus? O nome do grande dragão é «Tu-deves». Mas o espírito do leão diz: «Eu quero».
«Tu-deves» impede-lhe o caminho, rebrilhante de ouro, coberto de escamas; e em cada uma das suas escamas brilham em letras de ouro estas palavras: «Tu deves».
Valores milenários brilham nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim: «Em mim brilha o valor de todas as coisas.
Todos os valores foram já criados no passado, e eu sou a soma de todos os valores criados.» Na verdade, para o futuro não deve existir o «eu quero». Assim fala o dragão.
Meus irmãos, para que serve ter este leão no espírito? Não bastará um animal paciente, resignado e respeitador?
Criar valores novos é coisa para a qual o próprio leão não está apto; mas libertar-se a fim de ficar apto a criar valores novos, eis o que pode fazer a força do leão.
Para conquistar a sua própria liberdade e o direito sagrado de dizer não, mesmo ao dever, para isso, meus irmão, é preciso ser leão.
Conquistar o direito a valores novos, é a tarefa mais temível para um espírito paciente e laborioso. E decerto vê nisso um acto de rapina e rapacidade.
O que ele amava outrora como seu bem mais sagrado é o «Tu deves». Precisa agora de descobrir a ilusão e o arbitrário mesmo no fundo do que há de mais sagado no mundo, a fim de conquistar depois de um rude combate o direito de se libertar deste laço; para exercer semelhante violência, é preciso ser leão.
Dizei-me, porém, irmãos, que poderá a criança fazer, de que o próprio leão tenha sido incapaz? Por que deve ainda o leão que ataca tornar-se criança?
É que a criança é inocência e esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si própria, primeiro móbil, afirmação santa.
Na verdade, irmão, para jogar o jogo dos criadores é preciso ser uma santa afirmação; o espírito quer agora a sua própria vontade; tendo perdido o mundo, conquista o seu próprio mundo.
Disse-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se mudou em camelo, o camelo em leão, e finalmente o leão em criança.»
Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra
O mais extraordinário acerca dos sonhos do homem é que todos se realizam: sempre assim foi, ainda que as pessoas não o queiram admitir. E uma particuliaridade do comportamento do homem é que ele não fica nada surpreendido quando os seus sonhos se realizam: é como se estivesse sempre à espera de tal coisa. A determinação e o destino são irmãos, e ambos repousam no mesmo coração.
Halldór Laxness, Gente Independente
De vez em quando descobre-se uma criação extraordinária nas artes e nas letras. Ou redescobre-se, que é o mesmo. Mas quantas obras ficaram desconhecidas para sempre. Quantos não escreveram obras-primas que ninguém leu ou se perderam. Ou as imaginaram mas nunca as realizaram para existirem. Ou morreram cedo, antes de as imaginarem. Há monumentos ao «soldado desconhecido». Mas fazer guerra não é o acto sublime do homem. Penso neles agora, e eles existem ao menos no meu pensamento. E aqui lhes ergo, na minha compaixão, o monumento que nunca ninguém se lembrou de lhes erguer.
Vergílio Ferreira, Pensar
Os livros estão sempre sós.
Como nós.
Sofrem o terrível impacto do presente.
Como nós.
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar.
Como nós.
Calam sua fúria com sua farsa.
Como nós.
Têm fachadas lisas ou não.
Como nós.
Formosas, delirantes, horrorosas.
Como nós.
Estão ali sendo entretanto.
Como nós.
No limiar do esquecimento.
Como nós.
Cheios de submissão ao serviço do impossível.
Como nós.