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(de amortalhar), s.f. Mulher cujo ofício é amortalhar defuntos.
(Lat. Epizeuxe<Gr. Epizeuxis. ligação), s.f. Figura de retórica que consiste na repetição da mesma palavra.
Inicia-se aqui uma velha receita. A coisa é simples. Pega-se no velho dicionário e abre-se numa página aleatória. A primeira palavra da folha esquerda será a que figurará aqui. Façamos dela bom proveito.
Do grego veia + pedra; s.m. Concreção calcárea que se forma numa veia varicosa.
A partir de um despojamento que se iguala ao da morte, de uma humildade que ultrapassa a da derrota e da prece, fico maravilhado ao ver renovar-se sempre a complexidade das recusas, das responsabilidades, dos factores, das pobres confissões, das frágeis mentiras, dos compromissos apaixonados entre o meu prazer e o do Outro, tantos laços que é impossível quebrar e contudo tão depressa desfeitos. Este jogo misterioso que vai do amor de um corpo ao amor de uma pessoa pareceu-me suficientemente belo para lhe consagrar uma parte da minha vida. As palavras enganam, visto que esta – prazer – esconde realidades contraditórias, comporta ao mesmo tempo as noções de tepidez, doçura, intimidade de corpos, e as de violência, agonia e grito. A pequena frase obscena de Possidónio sobre o atrito de duas parcelas de carne, que te vi copiar nos teus cadernos escolares com uma aplicação de menino ajuizado, não define o fenómeno do amor, assim como uma corda que o dedo faz vibrar se não apercebe do milagre dos sons. Esta frase insulta menos a voluptuosidade que a própria carne – instrumento de músculos, de sangue e de epiderme, essa nuvem vermelha cujo relâmpago é a alma.
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano
Um homem não se sente totalmente privado dos bens aos quais nunca sonhou aspirar, mas fica muito satisfeito mesmo sem eles, enquanto outro que possua cem vezes mais do que o primeiro sente-se infeliz quando lhe falta uma única coisa que tenha desejado. A esse respeito, cada um tem também um horizonte próprio daquilo que lhe é possível atingir, e as suas pretensões têm uma extensão semelhante a esse horizonte. Quando determinado objecto, situado dentro desses limites, se lhe apresenta de modo que o faça acreditar na possibilidade de alcança-lo, o homem sente-se feliz; em contrapartida, sentir-se-á infeliz quando eventuais dificuldades lhe tirarem tal possibilidade. Tudo o que estiver situado externamente a esse campo visual não agirá de forma alguma sobre ele. Por esse motivo, as grandes propriedades dos ricos não perturbam o pobre, e, por outro lado, para o rico cujos propósitos tenham fracassado, serve de consolo as muitas coisas que já possui. (A riqueza assemelha-se à água do mar; quanto mais dela se bebe, mais sede se tem. O mesmo vale para a glória.) O facto de que o nosso humor habitual não resulte muito diferente do anterior após a perda de uma riqueza ou do bem-estar, tão logo tenha sido superada a primeira dor, depende, por sua vez, do facto de que nós mesmos, segundo a diminuição do limite constituído pelas nossas posses por obra do destino, diminuímos na mesma medida o limite das nossas pretensões. Essa operação é justamente o elemento doloroso em si, devido a uma desgraça: depois que ela se cumpre, a dor diminui sempre mais, até não ser já sentida: a ferida cicatriza-se. Ao contrário, num caso feliz, aquilo que cumpre as nossas aspirações é aliviado, e eles se expandem: nisso está a alegria. No entanto, ela também dura apenas até ao momento em que tal operação se realiza totalmente: nós habituamo-nos à ampliação dos nossos desejos e tornamo-nos indiferentes à posse correspondente. (…)
A fonte da nossa insatisfação reside nas nossas tentativas, continuamente renovadas, de aumentar o limite constituído pelas pretensões, enquanto o outro factor, que o impede, permanece imutável.
Arthur Schopenhauer, A Arte de Ser Feliz
Acordo
dia a dia mais cedo.
Tenho o relógio ao lado
procuro ver a hora
mas não vejo.
Fecho os olhos
verei daqui a bocado,
não há pressa
a hora não fugirá
está ali dentro presa