Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Jamais te orgulhes de um qualquer mérito que não seja teu. Se um cavalo, orgulhoso, dissesse «sou belo», tal seria ainda admissível. Mas tu, quando dizes, no teu orgulho, «que belo cavalo eu tenho!», fica a saber que te orgulhas da beleza que pertence a um cavalo. O que é que, em boa verdade, é pertença tua? Apenas o uso das impressões externas.
Por isso, sempre que no uso das impressões externas estiveres conforme à natureza, aí sim, é de ficar orgulhoso. Só nesse caso estarás a orgulhar-te de um bem que de facto te pertence.
Epicteto, A Arte de Viver
Não são as acções que perturbam o homem, antes os julgamentos que delas se fazem. A morte, por exemplo, nada de terrível representa por si – assim teria parecido ao próprio Sócrates – mas o julgamento da morte como algo terrível, isso sim é um mal. Por isso, quando estamos de pés atados, perturbados ou atormentados, ninguém mais podemos culpar para além de nós próprios, ou melhor, dos nossos julgamentos. É do próprio indivíduo sem formação culpar os outros, quando foi ele mesmo, e não estes, quem agiu indignamente. Culpar-se a si próprio é já próprio de quem deu início à sua formação. De um indivíduo completamente formado, no entanto, é próprio não culpar nem um outro nem a si mesmo.
Epicteto, A Arte de Viver
ou cupressite (Lat. cupressu, cipreste), s. f. Vegetal fóssil, semelhante ao cipreste.
Quando for de tua vontade entregares-te a qualquer tarefa, pensa bem qual a sua natureza. Quando, por exemplo, saíres para banhos, prevê o que a amiúde acontece no balneário: há os que te salpicam com água, os que te empurram, os que te ofendem e os que te roubam. Deste modo, mais prudentemente cumprirás a tua disposição s, ao saíres de casa disseres para ti próprio: «quero tomar banho, mas também, preservar os meus princípios conformes à natureza.»
Procede então deste modo em face a qualquer tarefa. Assim, se algo correr que te impeça de tomar banho, prontamente dirás: «bem, eu não queria só isto, mas também preservar os meus princípios conformes à natureza; e não os preservarei se me envergonha o que aqui se passa.»
Epicteto, A Arte de Viver
Vivo num teatro do absurdo; uma espera interminável pelo que não vem. Passo a peça nisto: aguardando(-me). Uma coisa persiste: a ausência. faço e desfaço; dou voltas à cabeça em voltas, e nada desponta. É como um terreno infértil. Cavado em vão. Regando o que não cresce. Apatia respirada. Tão-somente isso. Quero acordar mas é o sono não dormido que me acompanha, dia e noite. Uma sombra que me não larga. Um pesadelo manso. Uma janela emperrada que por nada cede, por mais que tente e me esforce. Empurro-me contra as coisas, as situações, as pessoas. Atiro-me às circunstâncias. Tudo debalde. Vão de escada que não dá acesso ao lar, essa casa de descanso interno. Tem anos que ouço a mesma melodia. Semi-alegre – é o que vale. Poderia ser melancolicamente fúnebre. Mas, ainda assim, não. Há um raio que, embora tímido, clareia o espírito. Quer romper. Por entre o cinzentismo. Uma coisa má: não choro: perdi esse alívio. Alma não lavada que pena por melhorar.
Augusto Candeias Vintém
(de muro), s. m. Montão de caliça ou entulho de edifício demolido; monturo; estrumeira; (ant.) residência
Sobre o que quer que cative a tua alma, que te seja útil ou que tu aprecies, lembra-te de perguntares a ti mesmo que tipo de coisa é essa de facto, a começar pelas mais insignificantes. Se gostares de um cântaro, diz a ti próprio «gosto deste cântaro.» Assim, se ele se partir, não sofrerás qualquer perturbação. Quando com ternura beijares a tua mulher ou o teu filho, pensa que estás a beijar apenas um ser humano. Assim, quando ele morrer, não serás, de igual modo, perturbado.
Epicteto, A Arte de Viver
Lembra-te que o troféu do desejo é conseguir aquilo que desejas, que o prémio da recusa é não cair naquilo de que se foge, e que infeliz é aquele que cai no que sempre evitou. Assim, se evitares apenas as coisas não conformes à natureza que dependem de ti, não hás-de cair em nada do que evitaste. Se, pelo, contrário, evitares a doença, a morte ou a miséria, serás infeliz. Remove pois toda a aversão de tudo quanto não depende de ti e transfere-a para aquilo que, não sendo conforme à natureza, está na tua dependência.
Contudo, para começar, anula toda a tua ambição: é que se desejares algo que não depende de ti, estás destinado a ser infeliz e, por consequência, nada do que depende de ti – que melhor seria desejares – permanece ao teu alcance. Dispõe apenas de escolha ou recusa, ou de ambos, mas com resignação, com reservas e com abdicação.
Epicteto, A Arte de Viver