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23 de Setembro

23.09.21

(...)

Quanta liberdade naquela meditação que nos transportava ao desconhecido mundo de beleza e paz; um mundo sem imagens, sem símbolos ou palavras, sem o fluxo incessante da memória. O amor estava na morte de cada instante, e em cada findar havia a renovação do amor. Livre do apego e de amarras, florescia do nada, consumindo na sua chama os limites e os muros cuidadosamente edificados pela própria consciência. Tal beleza jamais fora plasmada em tela, em palavras, ou no mármore, pois transcendia todo o pensamento e sentimento. O puro êxtase da meditação trazia consigo o sentimento do sublime.

Como é estranho o desejo de poder, o poder do dinheiro, do prestígio, da capacidade, do conhecimento. Entretanto, uma vez alcançado, o poder acarreta conflito, confusão e sofrimento. Do eremita ao político, da dona-de-casa ao cientista, todos almejam o poder. E para alcançá-lo não hesitariam em matar ou destruir uns aos outros. 0 asceta conquista o poder por meio do sacrifício, do controle e da repressão; o político através de promessas, da capacidade de realização e da esperteza; o marido e a esposa, mediante a dominação mútua; o padre através do compromisso assumido com o próprio deus. Todos anseiam pelo poder, seja ele mundano, seja espiritual, e a autoridade que dele emana gera conflito, desordem e sofrimento. Todos os que buscam ou detêm o poder da autoridade são por ele corrompidos. O poder exercido pelo padre, pela dona-de-casa, pelo líder, pelo eficiente administrador, pelo santo, ou pelo político local, é nocivo e prejudicial; quanto maior o poder, mais nefasta a sua acção. O mal que ele produz contamina a quantos que, fascinados, passam a adorá-lo, apesar de trazer em seu bojo eterno conflito, dor e confusão. No entanto, ninguém ousa abandoná-lo.

Junto com o poder vem a ambição, o desejo de fama e a crueldade, comportamento que a sociedade aprova e chega a incentivar. Esse comportamento, exaltado socialmente e até pela igreja, desvirtua e aniquila o amor. Estimula-se a inveja e a competição, origem do medo, da guerra e do sofrimento, mas homem algum atreve-se a questionar aqueles valores. A rejeição de qualquer forma de poder é o princípio da virtude e da lucidez, que elimina todo o conflito e dor. Sem jamais abandonar os íntimos recessos dos nossos pensamentos e desejos, aquele germe da corrupção aflora inesperadamente, apesar dos esforços em reprimi-la, ou modificá-la, através de leis e da moral estabelecida. O fim do sofrimento humano está na investigação e na compreensão do desejo e do pensamento, tarefa primordial de cada um de nós. Devemos empreendê-la sozinhos, sem ajuda de ninguém, sem seguir sistema algum, sem almejar recompensa, pois, uma vez conscientes da estrutura do nosso ser, na percepção do que é, o facto se transforma.

Eliminado o desejo de poder, a confusão, o conflito e a dor, resta-nos aquilo que somos: um amontoado de memórias e uma crescente solidão. O desejo de poder e fama é uma fuga desta solidão, que emerge das cinzas da memória. Para transcendermos isso, precisamos ver o facto, enfrentá-lo sem jamais contorná-lo mediante condenações ou o temor do que é. O próprio acto de fugir da realidade, de fugir do que é, gera o medo. Para que se revele a verdade contida na solidão e nas cinzas da memória, deve ser espontâneo e absoluto o abandono do desejo de poder e fama. Da passiva observação, sem escolha, do facto, nasce uma realidade nova. Somente o amor torna possível o convívio, nunca o apego. Necessitamos de imensa energia para convivermos com as ruínas da solidão e esta energia só pode nascer quando já não existir o temor.

Ao experimentarmos esta solidão, deixando-a para trás como se atravessássemos uma porta, verificamos que nós e a solidão formamos uma única e indivisível entidade; cessa de existir o observador separado daquele sentimento, que supera a palavra. As diferentes formas de fuga deixam de atrair-nos e então somos aquela solidão, sem saber como evitá-la, encobri-la ou preenchê-la. Rendemo-nos à evidência de que ela faz parte de nós, de que não existe nenhuma separação entre nós e a solidão. Nem mesmo o desespero, a esperança, o cinismo, ou a astúcia podem dominá-la. Somos aquela solidão, as cinzas que restaram da chama; a irremediável e intransponível solidão. O cérebro já não tem por onde escapar, pois é ele mesmo que cria a solidão, através da incessante actividade de auto-isolamento, de defesa e agressão. Consciencializando-se deste facto, adoptando uma postura de completa negação e passividade, o cérebro busca morrer, na absoluta imobilidade.

Das cinzas da solidão surge o movimento original do estar só, livre de influências, de pressões, de toda a forma de busca ou realização. É a morte do passado. Inicia-se, então, a viagem sem fim pelo desconhecido. E do que é imensurável nasce a força pura da criação.

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

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