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28.01.16

Tenho um carácter infeliz. Foi a minha educação que me fez desta maneira, foi Deus que me criou assim? Não sei. Só sei que, se acuso a infelicidade dos outros, não deixo de ser infeliz por isso. Bem entendido, isto é um fraco consolo para os que me rodeiam. Sucede, porém, realmente assim. Desde a minha primeira juventude, a partir do minuto em que deixei de ter a tutela de meus pais, dispus-me a gozar, furiosamente, de todos os prazeres que se podem obter com dinheiro e, como é lógico, esses prazeres só me inspiraram nojo. Em seguida, lancei-me na vida mundana, mas depressa a alta sociedade me fatigou também. Enamorei-me de jovens beldades e fui amado por elas; mas o seu amor só serviu para exasperar a minha imaginação e o meu orgulho. O meu coração continuou vazio. Dispus-me a ler, a aprender. Os estudos aborreceram-me também. Vi que nem a glória nem a felicidade dependiam deles de maneira nenhuma, pois os seres mais felizes são os ignorantes. Quanto à glória, é uma questão de sorte. Para a alcançar, basta ser hábil.

A  partir de então, o aborrecimento apoderou-se de mim... Em breve, fui transferido para o Cáucaso. Foi a época mais feliz da minha vida. Esperava que o aborrecimento desaparecesse sob as balas dos tchetchenes, mas foi uma esperança vã! Ao cabo de um mês, estava tão habituado ao seu zumbido e à proximidade da morte, que, na verdade, prestava mais atenção aos mosquitos. Mergulhei num aborrecimento ainda maior do que dantes, pois tinha quase perdida a minha derradeira esperança. (...)

(...) A minha alma foi corrompida pelo mundo, a minha imaginação é inquieta, o meu coração insaciável: dêem-me tudo e ainda é pouco. Habituei-me tanto à tristeza como ao prazer, e a minha existência torna-se de dia para dia mais vazia. Resta-me um único recurso: viajar. (...) Tenho a certeza, pelo menos, de que essa última consolação não se esgotará depressa; conto com as tempestades e os maus caminhos!

Mikail Lermontov, Um Herói do Nosso Tempo

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