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...

28.01.16

- Acha que tenho o ar dum assassino?

- É pior do que isso...    

Fiquei um momento meditativo e depois disse-lhe com um ar profundamente comovido:

- Sim, tal tem sido o meu destino, desde a infância. Todos liam no meu rosto os sinais de tendências más que não existiam. Supunham-nas, porém, e nasceram. Era modesto e acusaram-me de malicioso: tornei-me astuto. Tinha o profundo sentimento da distinção entre o bem e o mal; mas ninguém me acarinhava e todos me magoavam: tornei-me rancoroso. Era triste; as outras crianças eram alegres e faladoras e sentia-me superior a elas; colocaram-me a baixo de todos: passei a ser invejoso. Estava disposto a amar o universo inteiro, ninguém me quis compreender: aprendi a odiar.

A minha juventude incolor passou-se na luta contra mim próprio e contra os outros; os meus melhores sentimentos, por medo das troças, enterrei-os no fundo do meu coração. Dizia a verdade e não me acreditavam: passei a mentir. Depois de conhecer bem o mundo e as molas da sociedade, tornei-me perito na arte de viver; mas descobri que outros, sem qualquer esforço de habilidade, eram felizes e gozavam, gratuitamente, das vantagens que procurava obter com um zelo infatigável: então no meu coração nasceu o desespero, não o que se pode curar com o cano duma pistola, mas o desespero frio, impotente, que se oculta sob um sorriso amável e despreocupado.

Tornei-me um estropiado moral: uma parte da minha alma já não existia, secara, desfizera-se, estava morta; cortei-a e atirei-a fora. Como a outra metade se agitava e vivia ao serviço de todos, ninguém deu por nada, visto ninguém conhecer a existência da metade perdida. Agora, porém, reanimou em mim a sua recordação e li em si o seu epitáfio. Muita gente, em geral, considera ridículos os epitáfios, mas eu não, sobretudo quando me lembro do que está por baixo deles. Não lhes peço, aliás, que compartilhe da minha opinião: se o que disse lhe pareceu ridículo, pode rir à sua vontade, se quiser: previno-a de que isso não me incomodará absolutamente nada.

Mikail Lermontov, Um Herói do Nosso Tempo

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