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28.04.16

Temos ouvido falar da Sociedade para a Difusão do Conhecimento Útil. Diz-se que saber é poder, ou coisa semelhante. Parece-me que é igualmente necessária uma Sociedade para a Difusão da Ignorância Útil, algo que apelidarei do Conhecimento Belo, um conhecimento útil num sentido mais elevado, pois o que é a maioria do nosso elogiado e pretenso conhecimento senão a presunção de que sabemos algo, que nos priva das vantagens da nossa verdadeira ignorância? Aquilo a que chamamos conhecimento é muitas vezes a nossa real ignorância; e a ignorância, o nosso duvidoso conhecimento. após longos anos de aturadas diligências e de leituras de jornais - porque o que são as bibliotecas científicas senão compilações de jornais? -, um homem reúne uma miríade de factos, arruma-os na memória e, depois, em alguma primavera da sua vida, deambula pelos Grandes Campos do conhecimento, ou seja, começa a pastar como um cavalo e liberta-se de todos os arreios que repousam no estábulo. Daria por vezes o seguinte conselho à Sociedade para a Difusão do Conhecimento Útil: «Ide pastar na relva. Já comeram palha que bastasse.» Chegou a Primavera com as suas verdes colheitas. Até as vacas são conduzidas para as suas pastagens rurais antes do fim de Maio; embora tenha ouvido falar de um agricultor excêntrico que mantinha a sua vaca no celeiro e que lhe dava palha a comer todo o ano. É desta forma que a Sociedade para a Difusão do Conhecimento Útil trata geralmente o seu gado.

A ignorância do homem por vezes não é só útil, mas bela, ao passo que os seus pretensos conhecimentos são geralmente piores do que inúteis, além de serem coisa feia. Com que homem preferimos lidar: com aquele que nada sabe sobre um assunto e, algo extremamente raro, sabe que nada sabe, ou com aquele que sabe alguma coisa sobre dado assunto, mas julga que sabe tudo?

A minha ânsia de conhecimento é intermitente, mas a minha sofreguidão por banhar a cabeça em atmosferas que os meus pés desconhecem é perene e constante. A coisa mais elevada a que podemos aspirar não é o Conhecimento, mas a Compreensão pela Inteligência. Não sei se este conhecimento superior se resume a algo mais definitivo do que um romance ou uma surpresa sobre a súbita revelação a insuficiência de tudo a que antes chamámos Conhecimento - a descoberta de que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. É como o sol que desfaz a neblina. O homem não pode saber em grau mais elevado, tal como não pode encarar serenamente e com impunidade a face do sol. «Não podereis compreendê-lo como quem compreende um pormenor», diziam os oráculos caldaicos. 

Henry David Thoreau, Caminhada

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