Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Sobretudo, não podemos dar-nos ao luxo de não viver no presente. Entre todos os mortais, abençoado é aquele que não perde um instante a relembrar o passado. É anacrónica a filosofia que não nos manda escutar o cantar do galo nos celeiros das redondezas. Esse som relembra-nos geralmente que estamos a enferrujar e a ficar antiquados nas nossas ocupações e hábitos do pensamento. Já a filosofia desse abençoado homem se resume a um tempo mais moderno do que o nosso. Há algo que ela sugere que é um testamento mais novo - o evangelho segundo o momento presente. Não ficou na retaguarda; levantou-se cedo e começou cedo o dia, e estar onde ele está é viver na altura certa, nas primeiras fileiras do tempo. É expressão do carácter sadio e do vigor da Natureza, uma vanglória para o mundo - a salubridade de um regato que corre, uma nova fonte de Musas, e que celebra o instante que passa. Onde reside este carácter salutar não se aprovam leis que condenam escravos fugitivos. Quem não traiu muitas vezes o seu amo depois de ter ouvido o cantar do galo?
O mérito do canto deste pássaro reside em ser alheio a todo o queixume. O cantor pode facilmente comover-nos até às lágrimas ou fazer-nos rir, mas quem é capaz de despertar em nós a pura alegria da manhã?
Henry David Thoreau, Caminhada