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(...) tenho consciência agora de que, por trás de toda a beleza, por mais encantadora que ela possa ser, há sempre um espírito oculto, cujo vulto e contornos pintados são apenas formas de manifestação, e é com esse espírito que eu desejo harmonizar-me. Cansei-me das declarações inteligíveis dos homens e das coisas. Procuro agora o lado místico da Arte, da Vida e da Natureza. É absolutamente necessário que eu o encontre em algum lugar.
Tenho uma estranha nostalgia pelas coisas simples e primitivas, tais como o mar, que é para mim uma mãe tão poderosa quanto a Terra. Parece-me que contemplamos demais a natureza mas convivemos muito pouco com ela. Entendo agora que a atitude dos gregos diante dela era extremamente sadia: eles jamais falavam sobre o crepúsculo ou discutiam o tom que as sombras lançavam sobre a relva. Mas sabiam que o mar fora feito para os nadadores e a areia para os pés dos corredores. Amavam as árvores pelas sombras que elas lançavam e a floresta pelo seu silêncio ao meio-dia. O vinhateiro cobria os cabelos com hera para proteger- se dos raios do sol enquanto se inclinava sobre as plantas tenras, e para os artistas e os atletas, os dois modelos que a Grécia nos legou, eles teciam grinaldas com as folhas do louro e da salsa selvagem que, de outro modo, não teriam qualquer utilidade para o homem.
Chamamos a época em que vivemos de utilitária, mas a verdade é que não sabemos usar praticamente nenhuma das coisas de que dispomos. Esquecemos que a água limpa, o fogo purifica e que a Terra é a mãe de todos nós. Em consequência, a nossa arte é da lua e brinca com as sombras, enquanto que a arte grega é do sol e trata diretamente com as coisas. Tenho certeza de que há pureza nas forças mais elementares e quero voltar a elas e viver na sua presença.
Oscar Wilde, De Profundis