Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Montaigne escreve que é doloroso ter de permanecer num lugar em que tudo o que a nossa vida alcança nos diz respeito e a nós se refere. E mais adiante: a minha alma movia-se, sobre as coisas que me circundavam formei eu o meu próprio juízo e assimilei-as sem ajuda alheia. Uma das minhas convicções era que a verdade não podia de modo algum ceder à coacção e à força. E mais adiante: eu estou ansioso por me revelar, em que medida é-me indiferente, só é preciso que realmente aconteça. E mais adiante: não há nada mais difícil, mas também mais útil, do que a autodescrição. Cada um tem de se examinar, de se comandar a si próprio e de se colocar no lugar devido. A isto estou eu sempre pronto, pois descrevo-me sempre e não descrevo os meus actos, mas o meu ser. E mais adiante: muitas circunstâncias que a decência e a razão não permitem revelar dei-as eu a conhecer aos meus contemporâneos, para servirem de lição. E mais adiante: estabeleci para mim como norma dizer tudo o que ouso dizer e revelo mesmo pensamentos que verdadeiramente não se podem publicar. E mais adiante: se me quero conhecer, é para me conhecer como realmente sou, faço um inventário de mim próprio.
Thomas Bernhard, Autobiografia (excerto do texto "A Causa")