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(...)

No fundo, toda gente é igual ao político, que só se preocupa com o imediato e que tenta reduzir a vida àquele nível estreito. Para escapar ao sofrimento o homem criou a droga, a bebida, a igreja e a família. Visando findar com toda essa agonia, passamos a crer ardentemente em alguma coisa, mergulhamos no trabalho ou adoptamos um padrão qualquer de pensamento. Tudo isso foi tentado em vão, pois o nosso coração continuou tão vazio quanto a nossa mente e, ao buscarmos um outro caminho, nos perdemos no imediatismo. O sol era uma pálida mancha de luz no céu nublado. E a estrada seguia por entre as palmeiras, as casuarinas, os arrozais e a interminável sucessão de barracos; súbito, a inesperada presença daquela bênção purificadora invadiu-nos o coração; inacessível ao mais ardiloso dos pensamentos e ao mais delirante dos espíritos, aquela coisa misteriosa fazia-nos mergulhar no completo êxtase do infinito. Imóvel, porém sensível, o cérebro observava tudo. intimamente ligado ao tempo, que havia cessado, o cérebro estava impossibilitado de experimentar o vazio intemporal; experimentar é reconhecer,  e todo o reconhecimento implica tempo. Portanto, só lhe restava permanecer imóvel, sossegado, sem nada reivindicar ou buscar. 0 amor — ou como quiserem chamá-lo, não importa a palavra, —  derramou-se por toda a parte e se perdeu. Cada coisa tem o seu próprio espaço e dimensão, mas não aquela estranha energia que não se acha em parte alguma; é inútil procurá-la. Ela não está à venda no mercado, nem tão-pouco à disposição de fiéis seguidores de alguma religião; quando tudo for destruído, quando não houver pedra sobre pedra, quando for varrido todo o vestígio do passado, dando lugar ao imenso vazio, então, aquela desconhecida bênção poderá emergir do infinito. E lá estava ela, sem remorsos, com indescritível beleza. 

É inútil qualquer intenção de mudança, pois ela visa a um motivo, um objectivo, ou direcção, sendo, assim, mera continuidade modificada do que foi. Essa actividade é fútil e sem sentido; é como ficarmos trocando a roupa de uma boneca até o dia em que, cansados dessa actividade mecânica e sem vida, o brinquedo se quebra e jogamo-lo fora. A morte é o fim inevitável de toda a mudança; a revolução económica e social equivale à morte de um dado padrão de mudança. Esta, porém, sem ser uma revolução, é mera continuidade modificada do passado. Ocorre a mutação, a revolução total, quando percebemos a falsidade do processo de mudança, do padrão do tempo; então, no total abandono do velho molde do pensamento, se realiza a mutação.

Krishnamurti, Diário de Krishnamurti

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