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Ver o que acontece aqui, onde não há ninguém, onde nada acontece, arranjar maneira de aqui acontecer qualquer coisa, haver alguém, pôr fim a isto, fazer silêncio, ir no silêncio, ou noutro ruído, um ruído de vozes diferentes das vozes de vida e de morte, de vidas e mortes que não querem ser as minhas, ir na minha história, para poder sair dela, não, é tudo treta. Será possível que acabe por me crescer uma cabeça que seja minha e onde possa preparar venenos dignos de mim, e pernas para andar a pé, estaria finalmente, aqui, poderia ir-me embora, não peço mais nada, não, não posso pedir nada. Nada a não ser a cabeça e as duas pernas, ou uma só, no meio, ir-me-ia embora, ao pé-coxinho. Ou apenas a cabeça, muito redonda, muito lisa, não é preciso haver feições, e eu rolaria, pelas encostas abaixo, quase um puro espírito, não, não resultaria, a partir daqui é tudo a subir, tem de haver a perna, ou coisa que o valha, talvez uns anéis, contrácteis, com uns anéis vai-se longe. Que mal há em partir da porta do Duggan, por uma manhã de Primavera chuvosa e soalheira, sem saber se se pode chegar à noite? Seria tão fácil. Que mal há em estar escondido nesta carne ou noutra qualquer, neste braço apertado por uma mão amiga, e nesta mão, sem braço, sem mãos, e sem alma nestas almas trementes, através da multidão, no meio dos arcos, das bolas? Não sei, o que sei é que estou aqui e continuo a não ser eu, é com isso que tenho de me contentar. Não há carne em lado nenhum, nem nada que ajude a morrer. Esquece isso tudo, querer esquecer isso tudo, sem saber o que isso tudo significa, é fácil de dizer, é fácil de fazer, em vão, nada mexeu, ninguém falou. Aqui, aqui nada acontecerá, aqui não haverá ninguém, tão cedo. As partidas, as histórias, não estão para breve. E as vozes, venham elas de onde vierem, estão bem mortas.
Samuel Beckett, Novelas e Textos para Nada