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Vivo num teatro do absurdo; uma espera interminável pelo que não vem. Passo a peça nisto: aguardando(-me). Uma coisa persiste: a ausência. faço e desfaço; dou voltas à cabeça em voltas, e nada desponta. É como um terreno infértil. Cavado em vão. Regando o que não cresce. Apatia respirada. Tão-somente isso. Quero acordar mas é o sono não dormido que me acompanha, dia e noite. Uma sombra que me não larga. Um pesadelo manso. Uma janela emperrada que por nada cede, por mais que tente e me esforce. Empurro-me contra as coisas, as situações, as pessoas. Atiro-me às circunstâncias. Tudo debalde. Vão de escada que não dá acesso ao lar, essa casa de descanso interno. Tem anos que ouço a mesma melodia. Semi-alegre – é o que vale. Poderia ser melancolicamente fúnebre. Mas, ainda assim, não. Há um raio que, embora tímido, clareia o espírito. Quer romper. Por entre o cinzentismo. Uma coisa má: não choro: perdi esse alívio. Alma não lavada que pena por melhorar.
Augusto Candeias Vintém
Escreverei até o cérebro me deixar. Sem metáforas. Cheiro a quase. Outro lado das coisas. Ó fino fio de raciocínio, deixa-me desfiar só mais umas meadas! Que mais fazer? Puríssimo impuro: assim me revejo. Não tenho pena de ir assim. Nem pena de ficar assim. Sem penas algumas. Ainda que me sinta, aqui e ali, ave, sobrevoando frondosas árvores. E penhascos abissais. Livre planante sem olhar ao tempo. Chuva faça ou Sol irradie vida, sempre em acção. Calma, pacificamente. Não fora esta (im)pressionante dor de cabeça (onde a tenho, deus meu, para lá dos ombros?), e estaria feliz. Como a águia pesqueira que me aparece em sonhos ser. Indiferente, também. E repleta de intenção no olhar arguto e perspicaz. Como era, em tempos. Idos?, me pergunto. Ou seria esse antes ficção da minha agitada memória de hoje? Continuar, por aqui, a discorrer. Mesmo que a corrente de ânimo se parta, apartar-me de todo o emaranhamento que me faz duvidar de ainda valer a pena. Mais uma vez ela, a palavra: pena. Que também bem casa com a mão ainda activa, ainda querente, ainda crente na mudança. No movimento. Na organização. No foco de luz que aparece sempre nos fundos dos túneis vestidos de escuridão, esta que é mais uma imagem, uma espécie de adágio do engenhoso e inventivo humano.
Augusto Candeias Vintém
Mais um prego para este caixão demencial. Preferia, contudo, ser depositado sobre a terra, deixado à mercê do trabalho da vida, sem artefactos ou gentes chorosas perante uma cova artificial. Fuma, meu velho, fuma. E esquece. Ou lembra-te das coisas vividas positivamente. Tanto faz, de qualquer maneira. Talvez algum conforto emocional, se a lembrança for das pequenas felicidades vividas. Talvez. Calmante fumo excitando o acto louco de escrever. Porque só a loucura me faz ainda escrevinhar o que quer que seja. De resto, sem grande vontade ou tino. Talvez mais mecânico do que outra coisa qualquer. Sem gosto. Sem sabor. Sem o velho ido prazer. E matar o tempo que me vai consumindo. Música nas orelhas. Alegrete, como convém à loucura. Nada de melancolias disparatadas e inconsequentes. Para dramas já tenho os que chegue. Leveza: o que sempre procurei. Fluidez: o que em tempos tive. Fingir que está tudo bem. Dar essa informação ao cérebro gasto. Mas refinado, por estranho que pareça: uma boa dose de loucura surge com mais acutilância nas mentes inventivas. Que sabem sonhar. Criativas: tanto no bem quanto no mal. Sinto o corpo laço enquanto faço das linhas escrita. Os dedos trabalham livremente. Lembro-me vagamente de quem era. Era que a memória doira. Falsa, como a maioria das memórias. E gastamos tempo com elas: se não é o ser humano estranho. Incompreensível. Pede este pensamento mais um cigarro. Só um prego mais. Antes do seguinte. E assim é a vida: minuto atrás de minuto. Dizia Montaigne, se a memória – cá está ela outra vez – não me falha nem atraiçoa mais ou menos isto: se vivemos um dia vivemos todos. Nem mais! Nem mais um seria necessário. Ah, sim, coisas novas, aprendizagens, etc. Não tive já as que chegue? E se mantive erros sucessivos, de que me valeu toda essa pesada bagagem? De, provavelmente, tralha. Penso na morte. Ah, ela é sábia. E sabida. Não aparece assim com duas cantigas, a menos que tenhamos a coragem ou cobardia (depende dos pontos de vista) de nos suicidarmos. Quanto sofrimento há no mundo que peça que ela venha rapidamente mas, não obstante, este vence perante a morte sossegadora que não chega. O último medo antes dela seria, em tempos, a demência. Agora não. É um bem maior que sobrevive às guerras e loucuras do mundo. E terminamos como começámos, textual e metaforicamente. Mais um prego vivo de fumo ao largo.
Augusto Candeias Vintém