Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Alma-mesma

21.10.20

Nunca sabemos se ao Outro fazemos o bem ou o mal. Podemos beber estoicismos, como por aqui nos últimos dias se tem vertido pela voz do imperador-filósofo: bom sumo de madura fruta. Podemos meditar frequente e amplamente. Podemos nos pendurar em vários ramos na árvore da nossa experiência, quer da curta que é a nossa vida e estada, quer na da humanidade, que é de todos e infinda estrada. Podemos exaustivamente nos examinar. Podemos apenas o que de vulgo sói dizer-se seguir o coração. Podemos achar (ou querer achar) que estamos seguindo na senda da correcção, com lúcida razão, que são as nossas intenções e motivações boas, belas ou sãs. Mas, na verdade, nunca sabemos… se fazemos o mal ou o bem, se o fazemos bem ou mal. Se sabemos o que nos vai nos confins da alma (o que nem sempre é certo), dificilmente saberemos a leitura feita pela alma alheia – a menos que ela, sabendo precisamente o que nela vai, no-lo diga; e, dizendo ela, acreditemos nós por inteiro.

Do Outro desconhecemos a sua vida (e via) interna, os seus mecanismos mentais, as feridas que carrega, as doenças de que padece e delas se alguma – ou todas - projecta, os anseios que o governam, a realidade em que está ou cria, a sua verdade, o entendimento que tem, as sombras e luzes que o visitam, a consciência que o habita… Não nos doa a nós a cabeça de tanto em tudo pensar… No trato com o Outro, resta-nos crer, talvez, na Alma ela-mesma (talvez fosse mais correcto dizer-se Espírito), tentando procurar (e ver) em nós e Nele a pureza essencial. E esperar então que essa tal Alma-mesma, povoando os seres, presumindo-se conhecedora de verdades e mistérios, e sabendo tudo ler, nos envie uma proposta de resposta, em silêncio e em forma de (pres)sentir… não raro falada pelo vento.    

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sinto no meu largo peito o teu coração bater. Que aflito estás, Homem! Que medos e desesperos te assolam! Novo, velho te encontras. Velho, jovem sem rumo te queres mostrar. Senta-te aqui ao lado, na minha escada.  Nada peças, nada procures, nada queiras. Respira. Fundo. Tudo faz apaixonadamente aberto à incerteza. Vive quieto no presente – é este o momento. Sente a brisa e o perfume da flor que nela se embrenha. Voa com o pássaro e nada no seio de todas as vagas. A onda chega e parte. A maré molha o que o Sol secará. E se ele não fizer evaporar a tua ilusão, o teu inquieto ansiar, permanece firme, sem temor, no teu trémulo desassossegar. Se atento estiveres, verás brilhar a dissolução do teu confuso penar: pensar. Demasiado. Adoentada e desequilibradamente.   

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mãos na Massa

25.03.20

… mas não sejamos demasiadamente duros para com o maquinal homem da massa. Não é grande, a sua culpa. Apenas viceja e refocila, sem razão, desde a infância, no condicionamento que recebeu, sem dele se conseguir livrar. Não tendo culpa de se apegar desde o berço, deve ter contudo obrigação de por si pensar e agir, livre do mundo que o ensinou a ser controlado (e controlador), ambicionando mais ser o que todos são em vez de se descobrir. Olhar firme, demorada e conscientemente para o conquistador de plástico que é, agarrado como lapa à rocha em erosão do reconhecimento, gritando fama em qualquer beco ou vão de escada, julgando, febrilmente insano e psicologicamente descompensado, que bens materiais, infindos divertimentos vãos e orgíaco sexo avulso o transportam para os paraísos da felicidade. Muito rico que seja, é pobre. E coitado. Por muito sucesso que tenha, será sempre filho órfão da Graça. Mas da Verdade, a leste quer estar. Avidez, cobiça, desonestidade, hipocrisia, manipulação, mentira, egoísmo, dissimulação, agressividade, violência, poder miúdo, competição: eis o seu parco léxico, consultado no dicionário da sua ignorante desatenção. Desde a infância, se disse, e criança há-de morrer. Não tem força, não sabe lutar, mas na imagem que em si cultiva no confinado ginásio da vida, se tem, um tanto irracionalmente, por inteligente, um espertalhão. A educação que recebe, mais sem efeito do que com, é hoje, talvez mais do que nunca, assente na formatação, um decorar e memorizar inconsequente, contínuo, nauseante, alienante, em nada contribuindo para a formação de espíritos livres, questionadores, mentalmente activos. Tudo é forçado. Tudo é esforço: um esforço que na verdade enfraquece. E pela vida vai rastejando, como pode, como consegue, em busca do que o vizinho, revista ou televisão lhe mostra ser… o que deve querer, como deve ser, como se safar no meio da multidão que (ele próprio) engrossa. É uma papa tudo o que come (e que voraz estômago tem!), já sem a audácia, irreverência, vitalidade e verdadeira inteligência intuitiva presente nos primeiros anos da sua humana condição. Sim, sejamos um pouco mais justos. O que precisa o imberbe homem da massa não é de bordoada nem chibata: urge alguma doce e salutar educação.     

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ao Adormecido

23.03.20

Observa bem, ó Homem, não só o teu erro, mas o erro em que, tomado de estupidez, cupidez e ambição, te tornaste! És tu, hoje, ó Homem, uma maligna doença que espalha devastação por toda a Natureza. Exalto com fervores no estômago vazio a ruína do teu mesquinho mundo frenético, febril, insano, sem forma, desordenado. Que mais precisas de ver, quantas mais catástrofes tens de assistir e sofrer? Quantos horrores mais engolir? Quantas valas comuns abrir? Quantas filas de espera de cadáveres em marcha para o fogo eterno são necessárias para saíres da cegueira em que caíste? Olha para os teus satélites: mostram-te, ó trampas deste mundo, que a poluição fenece com o teu sossegar de movimento. É uma doença. Se fosse um meteorito, uma extraordinária explosão solar ou a erupção simultânea de vários vulcões dir-te-ia o mesmo: és nada, és ninguém. Mas vais insistir. Vais continuar. A arrogância, o fanatismo e a destruição correm-te nas veias da tua insensatez e na cabeça cujo endeusado pensamento coroado de insaciável desejo há muito substituiu a verdadeira inteligência. Se ainda nas entranhas e no coração há mínima chama e sentimento, pergunta à fila de cadáveres, aos que a guerra derruba, aos que sofrem a tempo inteiro: que farias tu, ó morto, ó esquecido, de diferente? Eles não são só eles, frios e distantes: eles és tu também.

Autoria e outros dados (tags, etc)

1 mg

21.03.20

Cuidado com aqueles que se mostram inchados de certezas. Rebentarão: provavelmente, de estupidez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

D'além Vírus

20.03.20

É este, poderia ser outro. A pandemia do coronavírus vem mostrar-nos, olhos adentro, o sabido, mas cuja ilusão em que de ordinário vivemos, a nos esquecermos se tende: a nossa fragilidade, insegurança e insignificância. Deveria fazer-nos reflectir e pensar nestes dias de espera e pesar: o que realmente importa nas nossas vidas, o que é ela afinal, que sentido e significado lhe damos? Questionar as nossas condutas, comportamentos, pensamentos. Interesses, ambições, ansiedades, toda a caterva de emoções e sentimentos não raro infectados de desnorte que nos arrastam para doentios estados mitigados por vezes a vícios e anti-depressivos. O inferno que compramos para nós mesmos e para os outros, as vivências conflituosas e egocêntricas. Todas as guerras travadas, as injustiças praticadas, a corrupção de Estados e de almas, as maldades feitas em defesa de um “eu” malparido e maltrapilho atulhado de crenças, preconceitos, de mil razões & opiniões confusamente formadas que nos arrastam para a competição alienada. O deus Ter em toda a sua macabra exaltação, louvado, adorado, bajulado. Num mundo em que a grande maioria de nós faz o que não gosta, vive insatisfeito consigo e com os outros, em permanente estado ora de ataque ora de defesa, psiquicamente desequilibrados, o pânico gerado por um agente infeccioso torna-se ainda mais irracional, mais insano. Temos de sentir medo, porque é no medo que vivemos e sem ele não sabemos sequer quem somos. Temos de viver na esperança de que tudo vai mudar por obra do acaso, dum deus ou (des)governante porque abrir os olhos, ver as coisas como são, olhar para si mesmo e para o mundo com coragem, honestidade e clareza, ter consciência o mais viva possível do Todo, isso é trabalho em que não se consegue aventurar. Vive-se em estado de ilusão profunda, artificialidade e superficialidade confrangedoras, no umbigo próprio enrolados, semi-mortos na verdade, mas com muito medo da morte orgânica. Não será este um estado virulento a merecer sério empenho na sua erradicação?

cachimbada

Autoria e outros dados (tags, etc)



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

Mais sobre mim

foto do autor