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Quanto a mim, escrevo só para a minha pessoa e declaro, de uma vez para sempre, que se escrevo como se estivesse a dirigir-me aos leitores, faço-o exclusivamente por fingimento, porque é mais fácil para mim escrever desta forma. É apenas uma forma, uma forma sem importância, nunca terei leitores. Já o declarei.
Não quero envergonhar-me de nada na redacção dos meus apontamentos. Não vou preocupar-me com a ordem e o sistema. Irei apontando as coisas à medida que me venham à ideia.
Por exemplo: alguém poderá agarrar-me na palavra e perguntar-me: se, na verdade, não está a contar com leitores, por que entra então em acordos consigo mesmo, ainda por cima no papel, como sejam: que não se preocupará com a ordem e o sistema, que vai escrever à medida que for recordando, etc., etc.? Para que são essas explicações? Por que pede desculpa?
- Porque sim - respondo eu.
Aliás, existe aqui toda uma psicologia. Talvez porque eu seja simplesmente um cobarde. Ou talvez porque imagine intencionalmente um público para poder comportar-me de modo mais decente enquanto escrevo. Pode haver um milhar de causas.
Mais uma coisa: porque e para quê, no fundo, quero escrever? Se não é para o público, poderia recordar tudo mentalmente, sem pô-lo no papel, não é verdade?
Pois é, mas no papel a coisa parece soar com mais solenidade. Há nisso algo de imponente, o juízo de mim mesmo é mais intenso, há mais requinte no estilo. Além disso, é possível que o processo de escrever me alivie. Por exemplo, hoje, pesa-me muito uma recordação antiga. Surgiu-me nitidamente há dias e, desde então, meteu-se em mim como aqueles musicais enfadonhos que nunca mais nos largam mas de que temos de libertar-nos. Tenho centenas de recordações deste género, e de vez em quando uma destaca-se do lote e começa a pesar-me. E acredito, sabe-se lá porquê, ver-me livre dela se a apontar. Por que não experimentar?
Finalmente: aborreço-me de não fazer nada, por isso, escrever é como um trabalho. Dizem que o trabalho torna o homem bom e honesto. Pois bem, aqui está pelo menos uma chance.
Fiódor Dostoiévski, Cadernos do Subterrâneo (excerto)