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23.09.15

A escrita como forma de oração...

 

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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23.09.15

São muitos os que estão à espera. Uma multidão a perder de vista, e a perder-se no escuro. Que querem eles? Parece que têm um certo número de reivindicações a fazer. Vou ouvir as reivindicações e depois respondo. Mas não vou aparecer à varanda; nem podia, mesmo que quisesse. No inverno fecham a porta da varanda e a chave não está à mão. Mas também não vou assomar à janela. Não quero ver nada que me possa confundir; à secretária, é esse o meu lugar, de cabeça entre as mãos, é essa a minha posição.

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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23.09.15

Só existe um destino, nenhum caminho. Aquilo a que chamamos caminho é hesitação.

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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22.09.15

Conhece-te a ti mesmo não significa: observa-te. Observa-te é a palavra da serpente. E significa: torna-te senhor das tuas acções. Mas agora já o és, és senhor das tuas acções. A palavra significa então: desconhece-te! Destrói-te! Ou seja: qualquer coisa da esfera do mal. E só quando nos curvamos muito ouvimos também o bem em nós, cuja palavra é: «para te tornares naquele que és.»

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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22.09.15

 

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Desiste!

21.09.15

Era ainda muito cedo, as ruas limpas e vazias, eu ia para a estação. Ao comparar o relógio de uma torre com o meu, vi que era muito mais tarde do que tinha pensado, não tinha tempo nenhum a perder, o susto provocado por esta descoberta deixou-me inseguro quanto ao caminho, ainda não estava muito à vontade nesta cidade, felizmente que havia um polícia ali perto , corri para ele e perguntei, ofegante, pelo caminho. Ele sorriu e disse: «E é a mim que vens perguntar pelo caminho?» «É», respondi eu, «porque sozinho não consigo encontrá-lo.» «Desiste, desiste», disse ele e voltou-se com um movimento largo e brusco, como aquelas pessoas que querem ficar sozinhas com o seu riso.

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Pequena fábula

21.09.15

«Ah», disse o rato, «o mundo cada dia fica mais apertado. A princípio era tão grande que até me metia medo, depois continuei a andar e ao longe já se viam os muros à esquerda e à direita, e agora - e não passou assim tanto tempo desde que eu comecei a andar - estou no quarto que me foi destinado e naquele canto já está a armadilha em que vou cair.» «Tens de inverter o sentido de marcha», disse o gato, e comeu-o.

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O abutre

21.09.15

Era um abutre, e dava-me bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias, e agora dava-me já bicadas nos pés propriamente ditos. Picava e voltava a picar, depois voava várias vezes, inquieto, à minha volta, e continuava o seu trabalho. Passou por ali um senhor, ficou um momento parado a olhar, e depois perguntou-me por que razão eu me não defendia do abutre. «Mas, eu não me posso defender», disse eu. «Ele chegou e começou a dar bicadas, é claro que tentei enxotá-lo, tentei mesmo estrangulá-lo, mas um bico destes tem muita força; e depois já me queria saltar para a cara, por isso preferi sacrificar os pés. Agora já estão quase desfeitos.» «Não percebo porque se deixa torturar assim», disse o homem, «basta um tiro para acabar com o abutre». Ah, é?», perguntei eu. «E o senhor não podia tratar disso?» «Com muito gosto», disse ele. «Só preciso de ir a casa buscar a espingarda. É capaz de esperar uma meia hora?»  «Não sei», disse eu, e fiquei por um instante hirto de dor. E depois pedi: «Mas tente de qualquer modo, por favor». «Está bem», disse o senhor, «vou o mais depressa que puder». O abutre tinha ficado calmamente a ouvir a conversa, olhando, ora para mim, ora para o senhor. Agora apercebi-me de que ele tinha compreendido tudo. Levantou voo, inclinou-se muito para trás para tomar balanço suficiente e depois, como um lançador de dardo, enfiou o bico pela minha boca e por mim adentro. Caído de costas, senti, agora liberto, como ele irremediavelmente se afogava no meu sangue, que enchia todas as profundezas e alargava todas as margens.

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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Há quem diga que a palavra Odradek é de origem eslava., e procura-se então, com base nisso, demonstrar a formação  da palavra. Outros, porém, acham que ela vem do alemão, e que o elemento eslavo é apenas uma influência. Mas é evidente que a insegurança das  suas explicações nos permite concluir que nenhuma delas é correcta, até porque nenhuma permite encontrar o sentido da palavra.

Naturalmente que ninguém ia perder o seu tempo com tais estudos, se não existisse realmente um ser com o nome de Odradek. À primeira vista, parece uma bobina de fio, chato e em forma de estrela, e de facto há uma espécie de fios que o cobrem; certamente pedaços de fios de vários tipos e cores, esgarçados, velhos, atados e também todos enleados uns nos outros. Mas não se trata apenas de uma bobina, porque do meio da estrela sai um pauzinho transversal, ao qual se junta outro, em ângulo recto. Com a ajuda deste último pauzinho e de uma das pontas da estrela, a coisa é capaz de se por em pé, como se tivesse duas pernas.

Seria natural pensar-se que esta figura terá sido em tempos uma qualquer forma funcional, e que agora está apenas partida. Mas esta hipótese não parece ter muito fundamento, pelo menos, não há sinais disso; não existem zonas quebradas ou com eventuais membros a nascer, que nos pudessem confirmar tal hipótese; a coisa parece não ter finalidade no seu conjunto, mas ser, à sua maneira, completa. Mas, de facto, não é possível dizer nada de mais concreto, visto que Odradek é extraordinariamente ágil e ninguém consegue apanhá-lo.

Anda pelo sótão ou pelas escadas, pelos corredores, no vestíbulo. Por vezes passam-se meses sem que ninguém o veja; provavelmente mudou-se para outras casas; mas acaba infalivelmente por voltar à nossa casa. às vezes, quando saímos e ele, por acaso, está encostado ao corrimão aos pés da escada, bem gostaríamos de lhe dirigir a palavra. É claro que não lhe fazemos perguntas difíceis, mas tratamo-lo - até pelo seu tamanho minúsculo - como a uma criança. «Como é que te chamas?», perguntamos-lhe. «Odradek», responde ele. «E onde é que moras?» «Domicílio incerto», diz, rindo; mas é apenas um riso como de alguém que não tivesse pulmões. Ouve-se como o restolhar das folhas caídas. E com isto geralmente a conversa chega ao fim. Aliás, até estas respostas nem sempre vêem; muitas vezes fica durante muito tempo calado, como a madeira de que parece ser feito.

É em vão que pergunto a mim mesmo qual será o seu destino. Será que pode morrer? Tudo o que morre teve antes qualquer espécie de objectivo, qualquer forma de actividade e com isso se foi desgastando; mas isto não se aplica a Odradek. Será que ele um dia ainda vai rebolar escadas abaixo com aqueles fios atrás de si, até aos pés dos meus filhos e netos? É obvio que não faz mal a ninguém; mas a simples ideia de que ele possa sobreviver-me é para mim quase dolorosa.

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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À Porta da Lei

21.09.15

À porta da lei está um guarda. Um homem do campo aproxima-se do guarda e pede para entrar na lei. Mas o guarda não lhe pode dar autorização para entrar. O homem pensa um pouco e depois pergunta se poderá entrar mais tarde. «É impossível», diz o guarda, «mas agora não.» Como a porta de entrada na lei está aberta, como sempre, e o guarda se afasta um pouco, o homem curva-se para poder olhar lá para dentro. Ao reparar nisso, o guarda ri e diz: «Se estás assim tão curioso, tenta entrar, apesar de eu to proibir. Mas nota bem: eu sou poderoso. E sou apenas o mais humilde dos guardas. Mas de sala em sala há outros guardas, cada um mais poderoso do que o anterior. Nem eu próprio já consigo suportar a vista do terceiro.» O homem do campo não esperava encontrar tais dificuldades; pensava que a lei deve ser sempre acessível a todos, mas ao olhar agora melhor para o guarda, com o seu casaco de peles, o grande nariz adunco, a barba negra à tártaro, comprida e fina, decide que é melhor esperar até ter autorização para entrar. O guarda dá-lhe um banquinho e deixa que ele se sente ao lado da porta. O homem fica ali sentado dias e anos. Tenta muitas vezes que o deixem entrar e cansa o guarda com os seus pedidos. O guarda faz-lhe frequentemente pequenos interrogatórios, perguntas sobre a sua terra e muitas outras coisas, mas pergunta só por perguntar, como fazem os grandes senhores , e por fim diz-lhe sempre que ainda o não pode deixar entrar. O homem, que trouxe muita coisa consigo para a viagem, recorre a tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. este aceita, na verdade, tudo o que ele lhe dá, mas vai logo dizendo: «Só aceito para tu não ficares com a impressão de ter perdido alguma oportunidade.» Durante aqueles muitos anos, o homem observa o guarda quase ininterruptamente. Esquece os outros guardas, e este primeiro parece-lhe ser o único obstáculo à entrada na lei. Amaldiçoa este infeliz acaso, nos primeiros anos sem contemplações e alto e bom som, mas mais tarde, à medida que vai ficando velho, já só resmunga com os seus botões. Começa a ficar com tiques infantis e, como em todos aqueles anos de observação do guarda também viu que ele tinha pulgas na gola da pele, pede também ajuda às pulgas para fazer o guarda mudar de opinião. Por fim, a luz dos olhos começa a ficar fraca, e ele já não sabe se realmente está a ficar mais escuro à sua volta ou se são os olhos que o enganam. Mas uma coisa é certa: agora apercebe-se de um brilho no escuro, uma luz que irrompe da porta da lei e nunca se apaga. Agora já não tem muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências de todo aquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até agora não fez ao guarda. Como já não consegue erguer o corpo hirto, faz-lhe sinal com a mão. O guarda tem se curvar muito para o ouvir, porque a diferença de alturas se acentuou bastante, em desfavor do homem. «O que é que ainda queres saber?», pergunta o guarda. «És mesmo insaciável.» «Toda a gente aspira a entrar na lei, não é?», diz o homem. «Como é que se explica então que em todos estes anos ninguém, além de mim, tenha pedido para entrar?» O guarda percebe que o homem está a dar as últimas e, para que o ouvido cada vez mais fraco o possa entender, grita-lhe: «Ninguém mais podia entrar por aqui, porque esta entrada estava-te destinada só a ti. Agora vou fechá-la.»

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos

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