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15.12.19

O homem que desespera tem um motivo de desespero, pensa-se durante um momento, um breve momento; porque logo surge o verdadeiro desespero, o verdadeiro rosto do desespero. Desesperando duma coisa, o homem desesperava de si, e logo em seguida quer libertar-se do seu eu- Assim, quando o ambicioso que diz «Ser César ou nada» não consegue ser César, desespera. É por não se ter tornado César que já não suporta ser ele próprio. Mas no fundo, não é bem por não se ter tornado César que desespera, mas sim pelo eu que não se constituiu. Esse mesmo eu que doutro modo teria sido razão da sua alegria, alegria contudo não menos desesperada, ei-lo agora mais insuportável do que tudo! Analisando mais de perto, não é o facto de não se ter tornado César que é insuportável, mas o do eu não se ter tornado César, melhor dizendo, o que ele não suporta é não poder libertar-se do seu eu. Tê-lo-ia podido, tornando-se César, mas tal não sucedeu, e o nosso desesperado tem de se sujeitar. Na sua essência, o desespero não varia, pois não possui o seu eu, não é ele próprio. O ambicioso não se teria tornado ele próprio tornando-se César, é certo, mas ter-se-ia libertado do seu eu. É, portanto, superficial o dizer dum desesperado, como se fosse seu castigo a destruição do seu eu. Porque é justamente aquilo de que, para seu desespero, para seu suplício, ele é incapaz, visto que o desesperado lançou fogo àquilo que nele é refractário, indestrutível: o eu.

Desesperar de uma coisa não é ainda, por consequência, o verdadeiro desespero, é o seu início; está latente, como os médicos dizem a respeito duma enfermidade. Depois declara-se o desespero: desespera-se de si próprio. Olhai uma rapariga desesperada de amor, isto é, da perda do seu amado, morto ou inconstante. Tal perda não é desespero declarado, mas é dela própria que ela desespera. O eu de que ela se teria despojado, o eu que teria entregue deliciada se se tivesse tornado o bem do «outro», esse eu provoca agora a sua tristeza, porque tem de ser um eu sem o «outro». Esse eu que tem sido – aliás também desesperado, nem outro sentido – o seu tesouro, é-lhe agora um abominável vazio, morto o «outro», ou como que algo repugnante, pois provoca o abandono. Tentem dizer-lhe: «Estás a matar-te, minha filha!», e logo vereis como responde: «Ai de mim! Não, a minha mágoa está, precisamente, em não o conseguir».

Desesperar de si-próprio, querer, desesperado, libertar-se de si-próprio, tal é a fórmula de todo o desespero. A segunda é: querer, desesperado, sê-lo, reduzir-se àquele, ao desespero no qual alguém quer ser ele próprio, aquele em que se recusa a sê-lo. Quem desespera quer, no seu desespero, ser ele próprio. Mas então, é porque não pretende desembaraçar-se do seu eu? Aparentemente, não; mas se virmos as coisas mais de perto, encontramos sempre a mesma contradição. Este eu, que o desesperado quer ser, é um eu que ele não é (pois querer ser o eu que se é verdadeiramente é o contrário do desespero), o que ele quer, com efeito, é separar o seu eu do seu Autor. Mas aqui falha, não obstante desesperar, e todos os esforços do desespero, este Autor contínua a ser o mais forte e constrange-o a ser o eu que ele não quer ser. Entretanto, o homem deseja sempre libertar-se do seu eu, do eu que é, para se tornar um eu da sua própria invenção. Ser este «eu» que quer faria a sua delícia – se bem que noutro sentido o seu caso não seria menos desesperado – mas o constrangimento de ser este eu que não quer ser é razão do seu suplício.

(…)

Assim é o desespero, essa enfermidade do eu, a «Doença mortal». O desesperado é um doente de morte. Mais do que em nenhuma outra enfermidade, é o mais nobre do eu que nele é atacado pelo mal; mas o homem não pode morrer dessa doença fatal. A morte não é, neste caso, o termo da enfermidade: é um termo interminável. Salvar-nos dessa doença, nem a morte o pode, pois aqui a doença, com o seu sofrimento e… a morte, é não poder morrer.

É esse o estado do desespero. E o desesperado pode não o saber, pode conseguir (isto é sobretudo verdadeiro para o desespero que se ignora) perder o seu eu, e perdê-lo tão completamente que não fiquem vestígios: de qualquer modo a eternidade fará revelar-se o desespero do seu estado, retê-lo-á no seu eu. E porque nos espantaremos deste rigor? Pois que este eu, nosso ter, nosso ser, é ao mesmo tempo a suprema infinita concessão da Eternidade ao homem e a garantia que tem sobre ele.

Kierkegaard, Desespero, A Doença Mortal

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15.12.19

Eis a fórmula que descreve o estado do eu, quando deste se extirpa completamente o desespero: orientando-se para si-próprio, querendo ser ele próprio, o eu mergulha, através da sua própria transparência, até ao poder que o criou.

Kierkegaard, Desespero, A Doença Mortal

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29.03.19

O cavaleiro da fé já não encontra outro apoio senão em si próprio; sofre por não poder fazer-se compreender, mas não sente nenhuma vã necessidade de guiar os outros. A sua dor é a sua segurança; ignora o vão desejo, a sua alma é demasiado séria para isso. O falso cavaleiro atraiçoa-se por esse domínio adquirido num momento. Ele não compreende que se outro Indivíduo vai seguir o mesmo caminho deve tornar-se em Indivíduo exactamente da mesma maneira, sem ter, por consequência, necessidade de directivas de ninguém, e, sobretudo, de quem as pretenda impor. Aqui de novo ele sai da senda do paradoxo, não pode suportar o martírio da incompreensão; prefere, o que é muito cómodo, impor-se à admiração do mundo mostrando a sua capacidade de domínio. O verdadeiro cavaleiro da fé é uma testemunha, nunca um mestre; nisso reside a sua profunda humanidade muito mais significativa do que essa frívola participação na felicidade ou na desgraça de outrem, honrada com o nome de simpatia, quando afinal não passa de pura vaidade. Quer-se ser simplesmente testemunha: confessa-se implicitamente que ninguém, nem mesmo o último dos homens, tem necessidade de compaixão humana, nem de mostrar o seu aviltamento para que um outro faça disso um pedestal. Mas como esta testemunha não conseguiu facilmente o que ganhou, também não o vende por baixo preço e não tem a baixeza de aceitar a admiração dos homens para lhes oferecer, em troca, o seu desprezo; sabe que a verdadeira grandeza é, igualmente, acessível a todos.        

Kierkegaard, Temor e Tremor

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29.03.19

O cavaleiro da fé só dispõe, em tudo e para tudo, de si próprio: daí o terrível da situação. A maior parte dos homens vive numa obrigação moral, que dia após dia evitam cumprir; mas também nunca alcançam essa concentração apaixonada, essa consciência enérgica. Para a obter, o herói trágico pode, em certo sentido, pedir socorro ao geral, mas o cavaleiro da fé está só em todos os momentos. O herói trágico realiza essa concentração e encontra repouso no geral, o cavaleiro da fé despende um esforço constante. (…)

O verdadeiro cavaleiro da fé encontra-se sempre no absoluto isolamento; o falso cavaleiro é sectário, quer dizer que tenta sair da estreita vereda do paradoxo para se tornar um herói trágico barato. O herói trágico exprime o geral e sacrifica-se por ele. Em vez de assim actuar, o polichinelo sectário possui um teatro privado, alguns bons amigos e companheiros que representam o geral tão bem como os assessores de A Tabaqueira de Ouro representam a justiça. O cavaleiro da fé, pelo contrário, é o paradoxo, é o Indivíduo, absoluta e unicamente o Indivíduo, sem conexões nem considerações. É essa a sua terrível situação, que o débil sectário não pode suportar. Em lugar de tirar como conclusão o reconhecer a sua incapacidade para fazer o que é grande e confessá-lo sinceramente, o que não posso deixar de aprovar pois que é afinal a minha atitude, o pobre diabo supõe que juntando-se a alguns dos seus semelhantes poderá alcançar o termo do seu intento. Mas de modo algum terá êxito, pois o mundo do espírito não se deixa enganar. Uma dezena de sectários dão-se as mãos; não compreendem absolutamente nada acerca das crises de solicitude que esperam o cavaleiro da fé e às quais não pode subtrair-se porque seria ainda mais terrível abrir caminho com demasiada audácia. Os sectários ensurdecem-se uns aos outros fazendo grande algazarra, mantém afastada a angústia graças aos seus gritos, e este conjunto de gente ululante de medo supõe poder assaltar o céu e trilhar o caminho do cavaleiro da fé; mas este, na solidão do universo, jamais ouve uma voz humana; avança sozinho com a terrível responsabilidade.

Kierkegaard, Temor e Tremor

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29.03.19

(…) pensa-se que existir como Indivíduo é a mais fácil das coisas e por conseguinte interessa constranger os homens a alcançarem o geral. Não partilho nem deste receio, nem desta opinião e pelo mesmo motivo. Quando se sabe, por experiência, que não há nada de mais terrível do que existir na qualidade de Indivíduo, não se deve temer afirmar que não há nada de maior; mas também é-se obrigado a exprimi-lo de maneira a não fazer dessas palavras uma ratoeira para o extraviado que é necessário, antes de mais, reconduzir ao geral, ainda quando as suas palavras não deixem lugar ao heroísmo. (…) se pensamos que é relativamente fácil existir como Indivíduo, mostramos iderectamente uma inquietante indulgência para connosco; porque se realmente se tem respeito por si próprio e cuidado com a alma, está-se seguro de que aquele que vive sob o seu próprio domínio, sozinho no seio do mundo, leva uma vida mais austera e mais isolada do que a de uma jovem no seu quarto. Não faltam pessoas a quem é necessária a sujeição e que, entregues a si próprias, se lançariam como animais selvagens no egoísmo do prazer; nada mais verdadeiro; mas trata-se precisamente de mostrar que não se pertence a esse número, testemunhando que se pode falar com temor e tremor; e deve-se fazê-lo por respeito às coisas grandiosas, a fim de que elas não caiam no esquecimento, por receio das funestas consequências que se evitarão se se falar, sabendo que se trata de coisas grandiosas, conhecendo os seus terrores, sem o que nada se conhece da sua grandeza. (…) o cavaleiro da fé sabe que é magnífico pertencer ao geral. Sabe que é belo e benéfico ser o Indivíduo que se traduz no geral e que, por assim dizer, dá de si próprio uma edição apurada, elegante, o mais possível correcta, compreensível a todos; sabe quanto é reconfortante tornar-se compreensível a si próprio no geral, de forma a compreender este, e que todo o Indivíduo que o compreenda a ele compreende o geral, ambos usufruindo da alegria que a segurança do geral justifica. Sabe quanto é belo ter nascido como Indivíduo que tem no geral a sua pátria, a sua acolhedora casa, sempre pronta a recebê-lo todas as vezes que queira lá viver. Mas sabe, ao mesmo tempo, que acima desse domínio, serpenteia um caminho solitário, estreito e escarpado; sabe quanto é terrível ter nascido isolado, fora do geral, caminhar sem encontrar um único companheiro de viagem. Sabe perfeitamente onde se encontra e como se comporta em relação aos homens. Para eles, é louco e não pode ser compreendido por ninguém.

Kierkegaard, Temor e Tremor

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29.03.19

Pois que é a cultura? Eu sempre acreditei que era o ciclo que o Indivíduo percorria para chegar ao conhecimento de si próprio; e aquele que recusa segui-lo obtém um muito magro proveito de ter nascido na mais preclara das épocas.

Kierkegaard, Temor e Tremor

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29.03.19

A resignação infinita implica a paz e o repouso; aquele que a deseja, aquele que não se aviltou rindo-se de si próprio (vício mais terrível que o excesso de orgulho), pode fazer a aprendizagem deste movimento doloroso, sem dúvida, mas que leva à reconciliação com a vida. A resignação infinita é parecida com a camisa do velho conto: o fio é tecido com lágrimas e lavado com lágrimas, a camisa é também cosida com lágrimas, mas, ao cabo, protege melhor que ferro e aço. O defeito da lenda é que um terceiro pode tecer o pano. Ora consiste o segredo da vida em que cada um deve coser a sua própria camisa e, coisa curiosa, o homem pode fazê-lo tão perfeitamente como a mulher. A resignação infinita implica o repouso, a paz e a consolação no seio da dor, sempre com a condição de que o movimento seja efectuado normalmente. Eu não teria, contudo, muito trabalho se quisesse escrever um grosso volume onde passasse revista aos desprezos de toda a espécie, às situações completamente alteradas, aos movimentos abortados que me foram dados observar no decurso da minha modesta experiência. Acredita-se muito pouco no espírito e, no entanto, ele é indispensável para realizar este movimento que interessa não ser unicamente o resultado de uma dura necessitas que, quanto mais vai agindo tanto mais duvidoso torna o seu carácter normal.

Kierkegaard, Temor e Tremor

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28.03.19

... aquele que espera sempre o melhor, envelhece na decepção e o que aguarda sempre o pior, mais depressa se gasta, mas o que crê conserva eterna juventude.

Kierkegaard, Temor e Tremor

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