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Pode chover ou abater-se uma tempestade, mas não é isso que conta; uma pequena alegria pode surgir frequentemente num dia chuvoso e fazer um homem parar algures, para ficar sozinho com a sua felicidade, ou então levá-lo a levantar-se e olhar adiante, independentemente do sítio onde se encontre, para depois se rir tranquilamente uma e outra vez, enquanto observa tudo em seu redor. O que é que existe à nossa volta que nos faça pensar? Uma vidraça límpida de uma janela, um raio de sol na vidraça, o avistamento de um regato ou talvez uma faixa de azul entre as nuvens. Não é preciso mais do que isso.
Noutras alturas, mesmo os acontecimentos pouco habituais são insuficientes para retirar um homem do aborrecimento e da pobreza de espírito; pode-se estar no meio de um salão de baile e mesmo assim permanecer-se impassível, indiferente, sem se ser afectado por nada.
Knut Hamsun, Pan
O que consigo eu ao agitar a multidão se, ainda assim, serei crucificado? Pode-se reunir grandes multidões e incitá-las a agarrarem-se com unhas e dentes ao poder. Pode-se colocar uma faca de açougueiro nas suas mãos e incitá-la a esfaquear e cortar, e pode-se manobrá-la para se ganhar uma eleição. Mas alcançar uma verdadeira vitória, uma vitória moral, progresso para o seu semelhante, é algo que a multidão não consegue. Os homens de letras conversam bem, mas os tubarões do intelecto, os super-homens, os líderes espirituais montados a cavalo têm de parar e de procurar nas suas mentes quando o nome de um homem «verdadeiramente» grande é mencionado. Assim, o homem «verdadeiramente» grande é deixado para trás, com a multidão, a escória; por outras palavras, a maioria – o advogado, o professor, o jornalista e o imperador do Brasil, todos aqueles que constituem o seu rebanho de admiradores.
Knut Hamsun, Mistérios