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31.08.15

Um dia, leitor, hei-de contar as ânsias e tormentos com que se vai martelando esta artesania da escrita, em que ainda sobrevive a mão do caldeireiro ou, talvez, do fazedor de autómatos, e explicar como é desolador chegar ao nascer da roxa aurora e ao rumar dos primeiros autocarros, quando a tripulação de um avião de Leste sai do hotel em frente para a carrinha do aeroporto, apenas com duas ou três páginas sofrivelmente apontadas. Só este trabalho de minuciosa lavra, em traiçoeira brenha, não contando com o resto, havia de ser, não principescamente, não regiamente, mas imperialmente pago.

Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina

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31.08.15

As estações de serviço merecem ponderada especulação, têm muito que se lhe diga. Estão para os tempos de agora como as malas-postas para os remotos viajantes do princípio do século XIX e, bem assim, as postas de muda dos períodos e lugares em que existiram, como no Império Romano e na mais antiga Pérsia. No entanto, estas estações de muda do século XIX, escolhidas como exemplo, lôbregos antros de abancar, comer borrego com batatas, dormir percevejamente e levantar com o Sol tinham o carácter efémero de um desconforto a sofrer, tão natural no percurso como o cheiro a cavalum, as rodas partidas, os assaltos de bandidos campónios, ou os rins em moinha. As estações de serviço de agora, para muitos portugueses que sofrem uma inclinação arriscada pela ostentação de automóveis e palmilhanço de estradas, fazem parte do universo apelativo e sorvedouro dos centros comerciais, ou das chamadas «grandes superfícies», com vidros, vernizes, jorros de luz, fardas, objectos, pisca-piscas, enfim, aquilo que não se encontrava no campo de previsão de quaisquer escritores medievos ao pretenderem descrever o paraíso terreal, que alcançavam sempre mais pífio e pobrete que estes modernóides, privilegiados e avassaladores conjuntos. São tão populares e bem-amadas as estações de serviço que aos fins-de-semana esvaziam as aldeias, vilas e povoados em redor e toda a gente acorre em excursão a perambular no vistoso palácio da estrada, entre as casas de banho, o self-service, a tabacaria, o balcão dos cafés e das cervejas, tudo do mais fino desaine, muito parecido com outro que há em Insbruck, outro na Lovaina, outro em Salonica. Uma das vantagens destes edifícios, mai-lo seu recheio, é precisamente essa. Deixamos de saber em que terra estamos, viajamos para Singapura, ou para Helsínquia, sem tirar os pés da sacra Pátria lusitana. Mas é preciso conceder, faça-se justiça e pereça o mundo, que as sandes de fiambre aguado com alface requeimada sempre serão mais tragáveis que o bodum do carneiro de outrora, que as rodelas de chouriço não têm comparação com a iguaria equivalente da Dinamarca.

Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina

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31.08.15

Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensambles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu do Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados, que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é a causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.

Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.

Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina

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