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09.11.20

Os nossos poderes mentais deviam permitir-nos perceber a rapidez com que todas as coisas se desvanecem; os corpos no mundo do espaço, e as lembranças no mundo do tempo. Devíamos também observar todos os objectos da percepção — particularmente aqueles que nos enchem de prazer ou nos
afligem com sofrimento, ou são clamorosamente impelidos até nós pela voz da vaidade — a sua vulgaridade e baixeza, como são sórdidos, e como se desvanecem e morrem rapidamente. Devíamos distinguir o verdadeiro merecimento daqueles cuja palavra e opinião conferem reputação. Devíamos apreender, também, a natureza da morte; e que basta contemplá-la fixamente e dissecar as fantasias a ela mentalmente associadas, para acabarmos por pensar nela como nada mais do que um processo natural (e só as crianças se assustam com um processo natural) — ou melhor, como qualquer coisa mais do que um processo natural, uma contribuição positiva para o bem-estar da natureza. Também podemos aprender como o homem tem contacto com Deus, e com que parte de si próprio esse contacto se mantém, e como essa parte se comporta depois da sua remoção daqui.

Marco Aurélio, Meditações

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20.10.20

Renunciando a tudo o resto, apega-te às poucas verdades seguintes. Lembra-te que o homem vive só no presente, neste momento fugaz: todo o resto da vida é ou passado e já ido, ou ainda não revelado. Esta vida mortal é uma pequena coisa, vivida num cantinho da terra; e pequena também é a mais duradoura fama — dependente, como é, de uma sucessão de pequenos homens de curta duração, desconhecedores das suas próprias pessoas, e muito mais ainda de uma outra já há muito morta e enterrada.

 

Se cumprires a tarefa que tens diante de ti aderindo sempre ao rigor da razão com zelo e energia, mas também com humanidade, desprezando todos os fins menores e mantendo pura e vertical a divindade dentro de ti, como se mesmo agora fosses enfrentar o seu chamamento — se te ativeres firmemente a isto, sem te deteres para nada, nem te esquivares de nada, procurando apenas em cada acção que passa a conformidade com a natureza e em cada palavra e afirmação a verdade intrépida, então a vida sã será tua. E neste caminho ninguém tem o poder de te deter.

Marco Aurélio, Meditações

 

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19.10.20

Não prezes as vantagens advindas de qualquer coisa que envolva quebra da fé, perda do respeito por ti próprio, ódio, suspeita, ou maldição dos outros, insinceridade, ou desejo de qualquer coisa que tenha de estar dissimulado ou escondido. Uma pessoa cuja principal atenção vai para o seu próprio espírito e para a divindade que há dentro de si, bem como para servir a sua excelência, não toma atitudes afectadas, não se queixa, e não suspira pela solidão nem tão pouco por uma multidão. E o melhor de tudo é que a sua vida ficará livre de contínuas buscas e esquivas. Não se preocupa se a alma dentro do seu corpo mortal será sua por muitos ou poucos anos; se neste preciso momento for a altura de partir, avançará tão prontamente como para desempenhar qualquer outra acção que possa ser realizada de maneira digna e tranquila. Não tem outra preocupação na vida que não seja a de manter o espírito fora de caminhos incompatíveis com os de um ser social e inteligente.

 

Num espírito disciplinado e purificado não há sinal de corrupção, mancha por limpar, nem ferida supurante. Nunca o destino poderá arrancar a tal homem a vida por realizar, como se fosse um actor a deixar o palco no meio da representação, antes da peça acabada. Não há nele nada de servil, nem tão pouco de vaidoso; nem se encosta aos outros, nem se isola deles; e não fica responsável por ninguém, mas também não culpado de evasão.

Marco Aurélio, Meditações

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18.10.20

Que haja nas tuas acções solicitude, sem deixares, porém, de ter em atenção o interesse comum; ponderação, mas sem indecisão; e que nos teus sentimentos não haja excesso pretensioso de refinamento. Evita a loquacidade, evita a solicitude excessiva. O deus que há dentro de ti deve presidir sobre um ser que seja viril e maduro, homem de estado, romano e soberano; um homem que não ceda terreno, qual soldado à espera do sinal de retirada do campo de batalha da vida, pronto a dar as boas vindas ao seu alívio; um homem cuja reputação não necessite de ser afirmada por si próprio, nem avalizada pelos outros. Eis o segredo da alegria, de não depender da ajuda de fora, e de não precisar de implorar a ninguém o favor da tranquilidade. Temos de nos pôr de pé por nós próprios, e não ser postos de pé.

Se a vida mortal te puder oferecer alguma coisa melhor do que a justiça e a verdade, o autodomínio e a coragem — isto é, paz de espírito na evidente conformidade das tuas acções com as leis da razão, e paz de espírito nas provações de um destino que não controlas — se, digamos, conseguires discernir um ideal mais elevado, nesse caso, aproveita-o com toda a tua alma e alegra-te com o prémio que encontraste. Mas se nada te parece melhor do que a divindade que mora dentro de ti, que orienta cada impulso, que pesa cada impressão, que abjura (nas palavras de Sócrates) as tentações da carne, e que confessa fidelidade aos deuses e compaixão pela humanidade; se, em comparação, achares tudo o resto mesquinho e sem valor, então não abras em ti espaço a quaisquer outras causas. Porque se alguma vez hesitares e te desviares, já não serás capaz de oferecer lealdade firme ao ideal que escolheste para ti próprio. Nenhumas ambições de outra natureza diferente podem disputar o título à bondade que pertence à razão e ao dever cívico; nem o aplauso do mundo, nem o poder, nem a riqueza, nem a alegria do prazer. À primeira vista, parece não haver incompatibilidade nestas coisas, mas logo elas levam a melhor e desequilibram o homem. Dir-te-ia, então, que escolhesses simples e espontaneamente o mais elevado e aderisses a ele. «Mas o melhor para mim é o mais elevado», dizes tu? Se é o melhor para ti como ser racional, segura-o bem; mas se o é meramente como animal, então di-lo abertamente e mantém o teu ponto de vista com a correspondente humildade — assegura-te apenas de que ponderaste bem o assunto.

Marco Aurélio, Meditações

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14.10.20

Não desperdices o que resta da tua vida a especular sobre os teus vizinhos, a não ser que tenhas em vista qualquer benefício mútuo. Interrogares-te sobre o que fulano está a fazer e porquê, ou sobre o que ele está a dizer ou a pensar ou a planear — numa palavra, sobre qualquer coisa que te desvie da fidelidade ao soberano governador dentro de ti — significa uma perda de oportunidade para outra tarefa qualquer. Repara então que o fluir dos teus pensamentos está liberto de fantasias ociosas ou casuais, particularmente daquelas de natureza indiscreta ou maldizente. Um homem devia habituar-se de tal maneira a este modo de pensar que, subitamente perguntado, «Em que estás a pensar neste momento?» pudesse responder honestamente e sem hesitação, provando assim que todos os seus pensamentos eram simples e bondosos como convém a um ser social, sem o gosto pelos prazeres de imaginações sensuais, ciúmes, invejas, suspeitas ou quaisquer outros sentimentos que o fariam corar ao reconhecê-los em si próprio. Um homem assim, determinado aqui e agora a aspirar às alturas, é, de facto, um pastor e ministro dos deuses; porque está a usar plenamente aquele poder interior que pode manter um homem limpo de prazeres, à prova da dor, indiferente ao insulto e impermeável ao mal. É um concorrente ao maior dos concursos, a luta contra o domínio da paixão; fica completamente impregnado de rectidão, recebendo com sincera alegria o que quer que seja que lhe caiba em sorte e raramente se perguntando sobre o que os outros possam dizer, fazer ou pensar, excepto quando o interesse público o exija. Limita as suas actividades àquilo que lhe diz respeito, deixando a sua atenção presa ao seu particular fio da teia universal, procurando fazer com que as suas acções sejam honradas, e na convicção de que tudo o que lhe possa acontecer tem de ser para o melhor — porque o seu próprio destino está, ele próprio, sob orientação superior. Não esquece a relação fraterna de todos os seres racionais, nem que a preocupação por todos os homens é própria da humanidade: e sabe que não são as opiniões do mundo que deve seguir, mas apenas as dos homens cuja vida está confessadamente de acordo com a Natureza. Quanto aos outros, cuja vida não está assim organizada, ele lembra constantemente o carácter que eles mostram diariamente, dia e noite, em casa, e cá fora, e o tipo de sociedade que eles frequentam; e a aprovação de tais homens, que nem sequer se sentem bem consigo próprios, não tem, para ele, qualquer valor.

Marco Aurélio, Meditações

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13.10.20

A tua atenção é desviada para preocupações exteriores? Então, concede-te um espaço de sossego dentro do qual possas aumentar o conhecimento do bem e aprender a refrear a tua inquietação. Defende-te também de outro tipo de erro: a loucura daqueles que passam os seus dias com muita ocupação mas carecem de um qualquer objectivo em que concentrem todo o seu esforço, melhor, todo o seu pensamento.

Marco Aurélio, Meditações

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12.10.20

 Decide com firmeza, a todas as horas, como romano e como homem, fazer tudo aquilo que te chegar às mãos com dignidade, e com humanidade, independência e justiça. Liberta o espírito de todas as outras considerações. Isto podes tu fazer se abordares cada acção como se fosse a última, pondo de lado o pensamento indócil, o recuo emocional das ordens da razão, o desejo de causar uma boa impressão, a admiração por ti próprio, a insatisfação pelo que te calhou em sorte. Vê o pouco que um homem precisa de dominar para que os seus dias fluam calma e devotadamente: ele apenas tem de observar estes poucos conselhos, e os deuses nada mais lhe pedirão.

Marco Aurélio, Meditações

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12.10.20

Começa cada dia por dizer a ti próprio: Hoje vou deparar com a intromissão, a ingratidão, a insolência, a deslealdade, a má-vontade e o egoísmo — todos devidos à ignorância por parte do ofensor sobre o que é o bem e o mal. Mas, pela minha parte, já há muito percebi a natureza do bem e a sua nobreza, a natureza do mal e a sua mesquinhez, e também a natureza do próprio culpado, que é meu irmão (não no sentido físico, mas como meu semelhante, igualmente dotado de razão e de uma parcela do divino); portanto nenhuma destas coisas me ofende, porque ninguém pode envolver-me naquilo que é degradante. Nem eu posso ficar zangado com o meu irmão ou entrar em conflito com ele; porque ele e eu nascemos para trabalhar juntos, como, de um homem, as duas mãos, os dois pés, as duas pálpebras ou os dentes de cima e de baixo. Criar dificuldades uns aos outros é contra as leis da Natureza — e o que é a irritação, ou a aversão, senão uma forma de criar dificuldades aos outros?

Marco Aurélio, Meditações

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