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28.08.15

(...) durante a sua vida breve, cada homem tem sempre que escolher, entre a esperança infatigável e a sensata ausência de expectativa, entre as delícias do caos e as da estabilidade, entre o Titã e o Olímpico. A escolher entre eles ou a conseguir pô-los, um dia, de acordo um com o outro.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

 

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28.08.15

Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

 

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28.08.15

Vejo uma objecção a qualquer esforço para melhorar a condição humana: é que os homens são talvez indignos dele. Mas repilo-a sem dificuldade: enquanto o sonho de Calígula se mantiver irrealizável e todo o género humano se não reduzir a uma única cabeça oferecida ao cutelo, teremos que o tolerar, conter e utilizar para os nossos fins; sem dúvida que o nosso interesse será servi-lo. O meu processo baseava-se numa série de observações feitas desde há muito em mim próprio: toda a explicação lúcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande atenção às pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem é exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, é como recusar alimentação necessária a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabundância. Quando se tiver diminuído o mais possível as servidões inúteis, evitado as desgraças desnecessárias, continuará a haver sempre, para manter vivas as virtudes heróicas do homem, a longa série de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doenças incuráveis, o amor não correspondido, a amizade recusada ou traída, a mediocridade de uma vida menos vasta que os nossos projectos e mais enevoada que os nossos sonhos: todas as infelicidades causadas pela divina natureza das coisas.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

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28.08.15

A Grécia empobrecida mantinha-se numa atmosfera de graça pensativa, de clara subtileza, de sábia voluptuosidade. Coisa alguma mudara desde a época em que o discípulo do retórico Iseu tinha respirado pela primeira vez o odor do mel quente, do sal e da resina; em suma, coisa alguma mudara havia séculos. O areal das palestras continuava a ser tão louro como outrora; Fídias e Sócrates já o não frequentavam, mas os jovens que se exercitavam ali pareciam-se ainda com o delicioso Charmido. Parecia-me, às vezes, que o espírito grego não tinha levado até às suas conclusões extremas as premissas do seu próprio génio: as colheitas estavam por fazer; as espigas maduras ao sol e já ceifadas eram pouca coisa em comparação com a  promessa eleunínia da semente escondida nesta bela terra. Mesmo entre os meus selvagens inimigos sármatas encontrava vasos de perfil puro, um espelho embelezado com uma imagem de Apolo, clarões gregos como um pálido sol sobre a neve. Entrevia a possibilidade de helenizar os bárbaros, aticizar Roma, impor suavemente ao mundo a única cultura que um dia se separou do monstruoso, do informe, do imóvel, que inventou uma definição do método, uma teoria da política e da beleza. O ligeiro desdém dos gregos, que nunca deixei de sentir sob as suas mais calorosas homenagens, não me ofendia; achava-o natural; fossem quais fossem as virtudes que me distinguiam deles, sabia que seria sempre menos subtil que um marinheiro de Egina, menos sábio que uma vendedeira de ervas da Ágora. Aceitava sem irritação as complacências um pouco sobranceiras desta raça altiva; concedia a um povo inteiro os privilégios que sempre concedi tão facilmente aos objectos amados. Mas, para dar aos Gregos o tempo de continuar e de completar a sua obra, seriam precisos alguns séculos de paz e os calmos ócios, as prudentes liberdades que a paz autoriza. A Grécia contava connosco para sermos os seus guardas, visto que, enfim, nos pretendíamos senhores. Prometi a mim mesmo velar sobre o deus desarmado.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

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28.08.15

Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum nem razão alguma para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem: sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia tê-lo sido. Entre outrem e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca correctamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas é talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui. (...) Conheci seres infinitamente mais nobres, mais perfeitos do que eu, como teu pai, Antonino; convivi com numerosos heróis e mesmo alguns sábios. Encontrei na maior parte dos homens pouca consistência no bem, mas sem terem mais no mal; a sua desconfiança, a sua indiferença mais ou menos hostil cedia quase depressa de mais, quase vergonhosamente transformava-se quase com demasiada facilidade em gratidão, em respeito, aliás certamente sem maior duração; o seu próprio egoísmo podia ser aproveitado para fins úteis. Espanto-me sempre de que tão poucos me tenham odiado; tive apenas dois ou três inimigos encarniçados, cabendo-me a mim, como sempre, uma parte da responsabilidade. Fui amado por alguns: esses deram-me muito mais do que eu tinha o direito de exigir ou mesmo de esperar deles, a sua morte e algumas vezes a sua vida. E o deus que trazem em si revela-se muitas vezes quando eles morrem.

Há um único ponto em que me sinto superior ao comum dos homens: sou ao mesmo tempo mais livre e mais submisso que eles se atrevem a ser. Quase todos desconhecem igualmente a sua justa liberdade e a sua verdadeira servidão. Amaldiçoam as suas grilhetas; outras vezes parece vangloriarem-se delas. Por outro lado, o seu tempo passa-se em vãos desregramentos; não sabem tecer, para si próprios, a mais ligeira sujeição. Por mim, procurei mais a liberdade que o poder, e o poder somente porque, em parte, favorecia a liberdade. O que me interessava não era uma filosofia de homem livre (todos aqueles que se exercitam nisso me aborreceram) - mas uma técnica: queria encontrar a charneira em que a nossa vontade se articula ao destino, onde a disciplina secunda a natureza em vez de a refrear.

(...)

Mas foi ainda à liberdade de aquiescência, a mais árdua de todas, que eu me entreguei com maior rigor. Queria o estado em que encontrava; dispondo-me a considerar como um exercício útil os meus anos de dependência, a minha sujeição perdia o que tinha de amargo e mesmo de indigno. Escolhia o que tinha, obrigando-me apenas a tê-lo totalmente e a apeciá-lo o melhor possível. Os trabalhos mas enfadonhos eram executados sem dificuldade por pouco me agradasse dedicar-me a eles. Logo que um objecto me repugnava, fazia dele um assunto de estudo; esforçava-me habilmente por tirar dele um motivo de alegria. Perante uma ocorrência imprevista ou quase desesperada, de uma emboscada ou de uma tempestade no mar, desde que todas as medidas relativas aos outros fossem tomadas, eu, por mim, festejava a adversidade, usava o que ela me trazia de inesperado,  e a emboscada ou a tempestade integravam-se sem choque nos meus planos ou nos meus sonhos. Mesmo no meio do meu maior desastre vi o momento em que o esgotamento lhe tirava uma parte do seu horror, em que eu o tornava meu aceitando aceitá-lo. Se tiver alguma vez de sentir a tortura, e a doença vai sem dúvida encarregar-se de me submeter a ela, não tenho a certeza de conseguir de mim, durante muito tempo, a impassibilidade de um Trásea, mas terei pelo menos o recurso de me resignar aos meus gritos. E foi assim, com uma mistura de reserva e audácia, de submissão e revolta cuidadosamente concertadas, de extrema exigência e prudentes concessões, que eu, finalmente, me aceitei a mim próprio.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

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21.08.15

Quanto à observação de mim mesmo, obrigo-me a isso, quanto mais não seja  para entrar em composição com este indivíduo junto do qual estarei forçado a viver até ao fim, mas uma familiaridade de sessenta anos comporta ainda muitas probabilidades de erro. No seu aspecto mais profundo, o meu conhecimento de mim próprio é obscuro, interior, inexpresso, secreto como uma cumplicidade. No seu aspecto mais impessoal, tão gelado como as teorias que eu posso elaborar acerca de números; empego o que tenho de inteligência para ver de longe e de mais alto a minha vida, que se torna então a vida de um outro. Mas estes dois processos de conhecimento são difíceis e requerem, um, uma penetração no nosso íntimo, outro, uma saída de nós mesmos. Por inércia, tendo, como toda a gente, a substituí-los por meios de pura rotina, por uma ideia da minha vida parcialmente modificada segundo o conceito que o público forma dela, por juízos feitos, quer dizer, mal feitos, como um molde antecipadamente preparado a que um alfaiate desajeitado adapta laboriosamente um tecido que é nosso. Equipamento de valor desigual. Utensílios mais ou menos embotados; mas não tenho outros: é com eles que eu construo, melhor ou pior, uma ideia do meu destino de homem.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano 

 

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20.08.15

Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linha. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nosso narradores escreveram, apesar de estes últimos serem considerados frívolos, e devo-lhes talvez mais informações do que as que recebi das situações bastante variadas da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a palavra humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

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18.08.15

Que é a nossa insónia senão a obstinação maníaca da nossa inteligência em manufacturar pensamentos, séries de raciocínios, de silogismos e definições bem suas, a sua recusa em abdicar a favor da divina estupidez dos olhos fechados ou da sábia loucura dos sonhos? O homem que não dorme, e tenho de alguns meses para cá ocasiões de sobejo para o constatar em mim mesmo, recusa-se mais ou menos conscientemente a confiar no curso das coisas.

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

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18.08.15

De todas as felicidades que lentamente me abandonam, o sono é uma das mais preciosas e também das mais comuns. Um homem que dorme pouco e mal, encostado a numerosas almofadas, tem tempo de sobejo para meditar sobre esta particular voluptuosidade. Concordo que o sono mais perfeito está quase forçosamente ligado ao amor: repouso meditado, reflectido em dois corpos. Mas o que me interessa aqui é o mistério específico do sono, saboreado por si mesmo, o inevitável mergulho a que se aventura todas as noites o homem nu, sozinho e desarmado, num oceano onde tudo muda, as cores, as densidades, o próprio ritmo da respiração, e onde encontramos os mortos. O que nos tranquiliza no sono é que se sai dele, e que se sai sem qualquer mudança, pois que uma extravagante interdição nos impede de trazer connosco o resíduo exacto dos nossos sonhos. O que nos tranquiliza também é que ele cura a fadiga, mas cura-nos, temporariamente, pelo mais radical dos processo, arranjando as coisas de maneira que deixamos de existir. Nisso, como noutras coisas, o prazer e a arte consistem em nos abandonarmos conscientemente a esta bem-aventurada inconsciência, consentirmos em sermos subtilmente mais fracos, mais pesados, mais leves, e mais confusos que nós mesmos. (...) Evoco os sonos bruscos sobre a terra nua, na floresta,  depois de fatigantes dias de caça; o ladrido dos cães acordava-me, quando não eram as suas patas postas sobre o meu peito. O eclipse era tão total que eu teria podido sempre encontrar-me outro, e espantava-me, ou às vezes entristecia-me, o estrito ajustamento que me trazia de tão longe a este estreito cantão da humanidade que sou eu próprio. Que eram estas particularidades às quais ligamos a maior importância, visto que contavam tão pouco para o livre dormidor e que, por um momento, antes de entrar com pena na pele de Adriano, eu chegava a saborear quase conscientemente esta sensação de homem vazio, esta existência sem passado?

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

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